Reforçar a equipa ou o modelo?

01 de Fevereiro de 2016

Não acredito em jogadores a evoluir à margem da evolução da equipa. O mais importante é ter um modelo de jogo (conjunto de princípios que lhes dão referências comportamentais) e todo o trabalho táctico-técnico ser dirigido para esse factor desde o primeiro dia. É impossível, nesse sentido, refazer a época em Janeiro.
Muitos clubes, porém, não resistem à tentação de contratar jogadores quase estranhos em relação à equipa. Ou seja, que podem evoluir por eles, mas que dificilmente evoluiem dentro da equipa como a conhecemos desde o inicio. O único ponto onde isto pode suceder é quando se quer meter um novo principio (mudar o tal comportamento de referência dum jogador numa certa posição). Nisso, as características distintas desse novo jogador podem ser a chave.
É nesse sentido que imagino Marega no FC Porto. Até pode acabar a nº9, mas pensando a forma como jogou esta época no Marítimo aplicada ao jogo portista, imagino um falso avançado-centro escondido desde a ala para depois aparecer no meio (ou arrancar em força até lá chegar) perto do nº9 de referencia, para finalizar. Nesse momento, então, o desenho táctico até pode ficar próximo do 4x4x2 (ou com dois avançados no centro do ataque).
Isto é, Peseiro pode não mudar a estrutura logo no papel, mas pode através da alteração de um simples principio fazer evolui-la em determinado momento/circunstância do jogo para o desenho que ele quiser.
O FC Porto é (pela mudança de treinador) a equipa que imaginamos a contratar para mudar (ou acrescentar coisas diferentes) a forma de jogar. O Sporting busca solidificar a dupla de centrais. Coates tem o problema da incógnita de qual será o seu ritmo de jogo e necessidade de afinar rapidamente entrosamento com o outro central (por isso, na analise que faço a um central numa equipa nunca a faço individualizada, mas sim em dupla, tal a forma como é decisivo nesse espaço a noção de “pequena sociedade”).
Sentia, talvez, no jogar da equipa, mais a falta de um lateral-direito completo a defender e atacar. A evolução de Scheloto (tal como Marvin na esquerda) tem subjacente um trabalho defensivo tão grande que será difícil ser essa a “solução táctica completa”.
Modelo e jogador. Por esta ordem. Se no FC Porto se tenta mudar mais o primeiro, no Sporting tenta-se acrescentar o segundo.

carcela

Mecânica ou dinâmica?

O crescimento do Benfica de Rui Vitória é notório neste arranque da segunda metade da época. Um crescimento que se baseia no ganhar de certezas do que pode fazer e desfazer dúvidas do que não pode.
A dança de Gaitan no golo ao Moreirense pode mostrar um jogador que por si só faz a organização ir mais além mas nunca será essa a base do “jogar bem” coletivo.
Por isso, pensando nas faixas (mesmo pós- regresso de Gaitan) o jogador indispensável taticamente é Pizzi. Assim, Gonçalo Guedes pode até ganhar um pouco mais de “sossego de treino” para crescer após uma fase em que já o tinham “posto na lua”. De Carcela, continuo a pensar que, neste Benfica (valor coletivo e modelo) será mais útil a entrar durante o jogo (e provocar-lhe um impacto nesse momento) do que de inicio.
Muitas vezes vemos uma equipa a jogar bem e logo ouvimos a análise dizendo, para a elogiar, que tem uma “boa dinâmica de jogo”. Na maioria das vezes, essa análise confundiu essa dinâmica com a simples eficaz execução de um... automatismo mecanizado. Confuso? Nem tanto. Ou seja, na jogada seguinte (ou até no jogo seguinte) ela vai repetir esses comportamentos padrão um e outra vez sem verificar que as circunstâncias mudaram. E que essa outra equipa já os viu.
Numa frase: a realidade é que é dinâmica. Só assim consigo utilizar esta palavra que tanto estranho ver utilizar de forma descontextualizada, quase como valor absoluto. Nunca pode ser. Sob pena de se tornar mecânica. Tudo o que o (bom) futebol não é.