A “velha casta” dos bons vinhos

02 de Março de 2016

Gosto de ver jogadores que resistem ao tempo. Isto é, sou um devoto dos veteranos, aqueles que desafiam a idade e jogam até tarde. Todos dizem que não vai ter força para aguentar, que “já não é o mesmo”, mas ele resiste, e joga. Em Itália, há muitos casos desses. Jogadores que até imaginamos que saíram dum sofá cadeirão na sala até com dificuldade em levantar-se mas que depois em campo jogam como nunca. Eu sei que isto sou eu a delirar, mas nesta dimensão caricatural está um pouco (ok, muito) do sentimento que tenho pelos jogadores que com o passar dos anos não perdem a paixão, o carácter, enfim, numa palavra: a qualidade. Só que, claro, expressa em traços diferentes.
Carlos Martins não é propriamente um veterano balzaquiano como descrevi, mas do alto dos seus 33 anos (faz 34 em Abril) já não é o miúdo que discutia e “partia tudo” no Sporting (para não ir aos inícios no Campomaiorense) e mais tarde também no Benfica, a puxar os calções acima antes de bater um livre á chuva bem de longe e de ângulo apertado. E a bola ia sempre lá à baliza.
Agora está no Belenenses. Tem o estatuto de 10 mesmo que não seja 10 e o sistema móvel de Velasquez o meta como falso 9 ou como verdadeiro 8 a pegar atrás, ou como tantas outras coisas. Por isso, durante o comentário do jogo com o FC Porto, dizia que Bakic jogava no meio (e como melhorou a equipa quando isso aconteceu), Aguilar a pivot, Miguel Rosa na esquerda e Carlos Martins ... em todo o lado.
Jogava e fazia jogar. Continua a querer ir a todas as bolas mas sabe que fisicamente isso já não lhe é possível e aqui é que entra o dado mais curioso que senti ao vê-lo jogar.
É que gosto mais dele assim: sem poder ir a correr com a língua a arrastar pela relva a todas as bolas. Gerindo-se fisicamente, faz melhor as pausas e seleciona melhor os piques e os locais onde se deve colocar para receber a bola que depois, também já não sentindo poder se estourar a correr com ela, define melhor no momento e precisão do passe.
Carlos Martins, arrisco, dizer, está hoje melhor jogador. Como o tempo azeda os maus vinhos e apura os bons, o seu futebol hoje tem uma “casta velha” de qualidade tático-técnica que não tinha no passado, onde era sobretudo coração com técnica a correr atrás da bola. Agora, é cérebro com táctica a tratar a bola com técnica. Oxalá jogue até aos 38. E depois ainda faça mais uns anos.