Como se tenta fugir à descida

15 de Março de 2016

Virando a classificação ao contrário, com o Tondela afogado, a luta pela fuga à descida mete, neste momento, três equipas (Académica, Boavista e U. Madeira) em dois pontos junto ao fatal alçapão do 17º lugar.
O U. Madeira já teve oportunidade para saltar. É a que respirou melhor ao longo do campeonato, sobretudo porque tem um onze base (tirando guarda-redes e ponta-de-lança) mais fixo, com um trio mecânico a meio-campo, Soares-Gian-Shehu. Estará, porém, desgastado e assim Norton Matos inventou Tiago Ferreira a trinco para defender melhor nessa posição chave.
A equipa é competitiva sobretudo quando o jogo fica em 30 metros e ganha segundas bolas mas devia ter crescido mais nos movimentos ofensivos, inclusive na transição rápida, para meter a bola com mais perigo nos avançados. Este União terá mais hipóteses de se salvar quanto melhorar a atacar, porque defender já a equipa sabe mesmo baixando muito o bloco.
O Boavista foi a que se reforçou melhor em Janeiro. Sanchez voltou ao 4x2x3x1 com duplo-pivot defensivo (Idris-Gabriel ou Tahar que se estreou mostrando passada larga de marcação, podendo mais solto subir no terreno como 8) e meteu um bom médio-ofensivo organizador, Ruben Ribeiro. É a importância das diferentes faces do meio-campo.
Não é uma equipa forte a pressionar, quer recuar para se organizar e por vezes perde o melhor “timing” dos encurtamentos ao adversário. É um factor que no jogo a faz sofrer mais defensivamente, mas a atacar é a que relaciona melhor em construção faixas e centro, com Renato Santos e Zé Manuel exímio a dar profundidade.
Em Coimbra, Gouveia (que não teve reforços, tirando o lateral-esquerdo Rafa) tem de inventar uma equipa todas as semanas no sentido competitivo do termo. É a que em campo fica com maior distância entre médios e avançados pois não tem um médio-enganche para fazer essa ligação de forma rápida. Rui Pedro devia ser esse homem mas falta-lhe intensidade para tanto espaço atrás e à frente. Assim, é Leandro Silva quem melhor faz esse papel quando dá uns passos em frente. Vendo o jogos, porém, entendo esse recuo do meio-campo como uma forma de disfarçar as lacunas da linha defensiva. A equipa fica mais junta e assim cobre mais os espaços.setubal
É difícil dizer qual das três está hoje melhor para consumar a fuga. Uma previsão? Salva-se quem tiver melhor contra-ataque.

O que se passa em Setúbal?

A quebra mais inquietante é a do V. Setúbal. Andou pelo topo e caiu a pique na classificação. Tem margem de proteção pontual mas passou a dormir pior. Olhando para a forma da equipa jogar não se notam, porém, alterações que justifiquem esta quebra. Mantem o seu 4x1x3x2 losango mas perdeu balanceamento ofensivo com bola. Devo recordar que embora me divertindo com os seus jogos, nunca os elogiei pela pretensa superioridade moral do dito “futebol de ataque” (elogiado e autoproclamado) porque não acredito nesses mitos num tempo de futebol táctico em que o fundamental é o equilíbrio sobretudo em equipas médias-pequenas que no jogo têm obrigatoriamente de viver noutros momentos.
Quim Machado fala da falta de golo como razão principal e, claro, a saída de Suk foi um golpe duro ao seu nível. André Claro também me parece que baixou de produção e André Horta, um talento com tanto para dar, caiu mais num jogo de impulsos. Tem existido menos objectividade de perigo nas saídas rápidas para o ataque, enquanto na defesa saiu o central Ruben Semedo. É natural que a equipa esteja menos tranquila, mas não existem muitas alternativas para Quim Machado mexer no seu onze base que resiste à mutação dos resultados.
Pode parecer um paradoxo dizer isto num caso em que o treinador diz que o problema é de golos, mas acho que a chave estará mais no equilíbrio defensivo a pensar ao mesmo tempo nos melhores locais para roubar a bola ao adversário. É outra forma de fazer nascer o tal “futebol de ataque”. Mais selecionado, com jogadas mais precisas, e assim... mais perigoso.