Os impulsos mais “racionais”

24 de Março de 2016

Um jogador a sair revoltado, com gestos, atirando camisolas ou murmurando desabafos, tornou-se num “espetáculo particular” que as transmissões televisivas patrocinam. Nessas alturas, os grandes planos vão naturalmente para eles. E eles sabem disso. Qualquer gesto pode ser, por isso, capitalizado. Na maioria, não acredito em meras reações impulsivas. É o momento em que os impulsos são até mais “racionais” mesmo que aparentem o oposto.

Nenhum clube ou treinador está livre disso. O caso-Slimani teve maior impacto por ser com ele e pela reação do treinador pós-jogo. Em vez de guardar para dentro, descompôs o jogador em direto mas não o arriscou fazer, naturalmente, no relvado no momento “quente” onde outro impulso tornaria a situação pior.
Nada disto é inocente. Toda a “encenação” que estes casos envolvem coloca a relação treinador-jogador no “fio da navalha”. Nessas alturas teme-se, obviamente, mais o “poder do jogador” porque é ele que vai para o campo e a equipa depende dele. Sobretudo quando é com os jogadores mais importantes. E, em geral, é, porque são os que tem mais margem para essas reações. Os outros se as tiverem são “encostados” e ponto.

Jesus não hesitou na reação numa altura em que a sua afirmação de poder em Alvalade (e seu momento de carreira que, no passado, teve episódios destes com reações bem diferentes que tocaram essa imagem de poder) é decisiva ser feita de todas as formas possíveis. Ele sabe que não pode perder, nem em Alvalade, a aura do treinador “supraestrutura”. De ser aquele que faz a estrutura ganhar e não o contrário. Foi o duelo que, desde a Luz, se “vendeu” como o choque da época.
A personalidade do jogador era decisiva para o episódio crescer ou encolher a seguir. Encolheu. O jogador retratar-se logo foi o melhor “tratamento invisível” para o caso. E o treinador pode crescer. Nem sempre as coisas se passam assim. Jesus, porém, já entrou nesta fase final da época consciente da “montanha russa” em que ela se tornou.

A sua avaliação não devia estar tão dependente de ganhar ou perder. O trabalho de “montagem do modelo de jogo” que fez de forma tão acelerada em Alvalade já merece o “seu titulo” mesmo que a equipa, no fim, não o conquiste em campo. Depois disso terá sempre “outra vida”, parecida mas com “entornos” diferentes. No mesmo local ou noutro mais distante.