Cruyff: Como dizer adeus a um Deus do futebol?

26 de Março de 2016

Quando morre um homem destes, não desaparece apenas o antigo jogador, treinador ou comentador. Desaparece alguém que nos indica o caminho e nos leva até lugares que só ele conhece. Cruyff fez isso primeiro como jogador, profeta da obra visionária de Rinus Michels, e depois como treinador, quando recriou a ideia em Barcelona e deixou o código genético que perdura até hoje.
A revolução do futebol holandês dos anos 60/70 surgiu quando o resultadismo pragmático das equipas italianas, a corte de Helenio Herrera, impunha-se na Europa. Michels congeminaria então no laboratório do Ajax outra ideia. O futebol moderno, conciliando o lado romântico mais puro com o lado táctico mais profundo, nasceu nesse tempo.

Chamaram-lhe “Futebol total” mas ele nunca reconheceu essa definição. Gostava mais de “futebol circular”. Futebolisticamente, os holandeses giravam em campo lembrando as pás dum moinho. Este foi o pai ideológico de Cruyff.
Em campo, porém, ele levaria a ideia mais longe. Quando jogava parecia dirigir tudo: equipa, ritmo de jogo, até o árbitro e o vendedor de gelados. Quando havia uma falta, agarrava a bola e passeava com ela debaixo do braço, ante o respeito de todos. Falava, gesticulava, até ao momento em que voltava a colocá-la na relva e o jogo só recomeçava quando ele o entendia. De uma área á outra. Dribles secos e mudanças de velocidade, conduzia a bola como o estilo de quem se sentia dono do mundo. Era a inteligência em movimento.

As equipas que Cruyff criou em Barcelona valem, por isso, pela ideia, com os “upgrades! necessários a cada época e traços identitários próprios numa hereditariedade ideológica, desde Rijkaard, Guardiola e, no futuro, Xavi (basta ouvi-lo falar uns segundos). Estes são os filhos ideológicos de Cruyff.

É errado dizer que no Futebol Total os jogadores não tinham posição certa e trocavam constante de lugar. A verdade é que em mais nenhum estilo os jogadores sabiam exactamente o seu papel. Desmontava era as posições clássicas para as estender a todos os jogadores em campo. O nº10 seria sempre aquele que... tivesse a bola. Porque é ele que, nesse momento, tem a responsabilidade de organizar a equipa saindo a jogar. A polivalência era cada jogador saber como jogavam os outros jogadores em posições diferentes. O lateral-direito tinha de estar tão atento à sua palestra como depois tinha de estar à que a seguir o treinador daria ao extremo-esquerdo.
O segredo era a dinâmica posicional que cada um deles incutia a cada posto, com circulação de bola em constantes mudanças de flanco (“carrocel mágico”) e aproveitamento dos espaços vazios. A “desorganização organizada”.

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Já retirado dos bancos, continuou a defender estas suas ideias e combater a glorificação do resultadismo. “Pergunto muitas vezes se trocaria os elogios que recebemos no Mundial 74 pelo título. Sinceramente, não. Claro que gostaria de ter ganho, mas hoje, tantos anos passados, ainda se fala mais da nossa selecção do que dos verdadeiros campeões do mundo.

Por isso, no presente em que a defesa desse “jogar bem” parece uma “guerra perdida” frente ao “resultadismo”, todos nós, os que vivemos naquele primeiro “campo de sonhos de futebol”, nos sentíamos melhor quando sabíamos (e o ouvíamos) que Cruyff estava do nosso lado.
Foi o maior a pensar o jogo. Era a essência do futebol. Nada do que que vemos hoje de cultura de posse e respeito pela bola e pelo passe (respeito pelo jogo!) teria sido possível sem ele ter existido. Nem eu gostaria tanto de futebol porque ele seria obrigatoriamente diferente sem ele, seria outro jogo. A alma do futebol subiu á eternidade. Maradona e Pelé são outra forma de dizer bola. Cruyff é outra forma de dizer futebol!