Brasil: Calor que não provoca arrepio

10 de Outubro de 2015

A maior crise existencial de jogo brasileira de sempre

Em nenhum momento a seleção brasileira deu a ideia de podia pegar no jogo. O Chile (que começou com três defesas, 3x4x1x2, e passou à meia-hora para defesa a “4” clássica tirando um central e metendo um extremo) foi sempre mais e melhor equipa. É perturbante ver a crise existencial de estilo em que caiu o futebol brasileiro no seu processo de “dungazização”. Não me lembro de uma crise de jogo tão profunda na seleção brasileira. Porque não se trata só de resultados (perdeu 2-0), trata-se de estar em causa tudo aquilo que é a sua herança técnico-estética e, desta vez, sem qualquer ganho táctico.
Não é um problema de talento. Nunca foi. Os talentos no Brasil continuam a nascer “debaixo das pedras”. É um problema de deficiente valoração do talento e sua utilização.
O problema é, claramente, de treinadores. O Brasil não sabe qualificar a quantidade brutal de talentos que tem. E nem joga, depois, pela natureza deles mas sim pelo seu aprisionamento num sistema táctico que quase os coloca em campo com um peso amarrado aos pés.

No Chile, o único que se soltou, em alguns rasgos, foi Douglas Costa, esticando em posse pela faixa esquerda. De resto, em 4x2x3x1, prende os volantes e coloca Elias como médio-defensivo puro (ao lado do pausado Luiz Gustavo) enquanto no clube, o Corinthians, joga como médio-ofensivo. Custa ver, também, o jogador indefinido em que se tornou Óscar. Dá a sensação que o futebol inglês e suas vertigens o assustam mais do que estimulam, parecendo depois “encolher-se” no jogo. Um sentimento com “transfer” para a seleção.
Não sei mesmo se, como se falou, tal será possível, mas não vendo hoje nenhum treinador brasileiro com visão para resgatar a identidade canarinha (dentro da modernidade atual) foi impossível, durante todo aquele penoso jogo, não imaginar o que seria Guardiola e suas ideias a treinar aquela seleção.

Corinthians- At. Mineiro: Como jogam as equipas brasileiras

corinthians-at.mineiro

As duas equipas que lutam pelo titulo, espelham bem o que é hoje, na essência táctico-técnica, o estilo do futebol brasileiro. Corinthians e At, Mineiro destacam-se, num primeiro olhar, pela robustez do seu meio-campo defensivo, onde moram duplas de volantes que manda no jogo coletivo. É o lado tacticamente mais competitivo dos clubes brasileiros.

Para provar esta ideia, Tite, técnico do Corinthians, resgatou na fase decisiva da época a experiência de Ralf (31 anos) para a posição de pivot (o “primeiro volante”) e poder largar o “segundo volante”, Elias, para o jogo, chegando à área. Foi assim que, em 4x3x3 com meio-campo em “1x2”, renasceu o melhor futebol de Elias.

No A. Mineiro, Levir Cupi tem uma dupla mais fixa num 4x2x3x1 mais posicional para a dupla á frente da defesa: Rafael Carioca (distribuindo desde trás) e Leandro Donizete (mais fixo, 33 anos)
Esta é a base da maioria das equipas brasileiras: volantes que suportem um trio mais criativo, embora este também sempre com missão de recuar a fechar. Pelas faixas, os laterais continuam a subir (muito bem Marcos Rocha na direita do Atlético e Fagner-Uendel no Corinthians).

No “3” ofensivo, o Corinthians tem hoje Renato Augusto mais cerebral e menos repentista do que no passado, e Jadson solto entre centro e faixas, assumindo-se organizador porque, no fundo, é quem tem melhor capacidade de passe do onze. O garoto Malcolm, é o canhoto rebelde, visão de futebol de rua puro.
O “3” do At. Mineiro tem alas mais abertos (Luan-Thiago Ribeiro) e um 10 mais temporizador com técnica, Giovani Augusto. No global, é uma equipa mais equilibrada mas com menos talento desequilibrador, embora ambas tenham um nº9 de “golo no sangue”: o corpulento argentino Lucas Pratto no “galo” e, após a lesão da revelação Luciano, Wagner Love no “timão”, já longe do fulgor da sua carreira.