Quando a bola deixa de “queimar”

15 de Janeiro de 2016

Para além da melhor táctica ou técnica mais fantástica, uma equipa é, antes de tudo, um estado de ânimo.
A forma como Adrien foi buscar a bola ao fundo da baliza do Braga após marcar o penalty já na segunda parte denunciava, no gesto e expressão, a matéria de que é feita hoje a equipa verde. Parecia taticamente impossível dar a volta aquele resultado. Depois de dois golos servidos gelados por Rafa (origem e conclusão) o Braga tinha tudo para montar o seu jogo de controlo e posse.
Pode-se, claro, entrar pelas nuances táticas que ambos meteriam nessa fase decisiva. O abdicar de Jesus do pivot Wilson Carvalho metendo mais um avançado, Montero, ficando o jogo mais vertical com presença entrelinhas em largura. A opção de Paulo Fonseca em meter um 9 mais forte e Alan quando o ritmo de jogo subira para níveis incontroláveis.
Este Braga tem o melhor 4x4x2 do campeonato mas falta-lhe, nestes jogos, a alternativa de meter um “terceiro médio” que meta um cadeado tático no centro mais adiantado do meio-campo (variando par 4x2x3x1).
Podia-se ficar neste debate mas nada disto seria relevante se a bola queimasse nos pé dos jogadores em vez de, pelo contrário, nesses momentos mais decisivos, todos a pedissem e a quisessem ter nos pés para resolver. É este aspecto mental (invisível mas perceptível) que faz as equipas ganharam jogos que “parecem impossíveis”.

Também se pode entrar pela táctica para analisar o primeiro FC Porto pós-Lopetegui. Rui Barros manteve o mesmo onze que empatou e despediu o espanhol no jogo anterior. A maior diferença foi, mantendo o triângulo do meio-campo, nenhum dos médios interiores, Herrera ou André André, recuar para pegar na bola no inicio de construção na zona de Danilo, assumindo este essa missão.
Acima disso, desde o inicio, a equipa parecia “maior” a crescer para os adversários a cada bola dividida (uma face da tal intensidade de jogo). A goleada tornou-se uma formalidade face à leveza do losango axadrezado, mas na forma como a equipa (ou melhor, jogadores e cabeça) entrou em campo, esteve a base para a nova expressão táctico-emocional azul.
Sporting e FC Porto, cada qual no seu estilo e realidade. Durante a época nenhuma equipa vive só do estado de ânimo mas, nos momentos mais difíceis, é através dele que sobrevivem para voltarem a ser quem... são.