1960: I TAÇA DAS NAÇÕES. VENCEDOR: URSS

01 de Junho de 2000

1960 I TAÇA DAS NAÇÕES (Fase Final: 4 selecções) VENCEDOR: URSS

Ignorada pela altivez britânica, olhada com desconfiança pelos italianos e desprezada pelo Império germânico que, segundo Sepp Herberger, o seleccionador campeão do mundo em 1954, apenas deveria concentrar-se em participar numa única competição internacional, o Campeonato do Mundo, a primeira edição da Taça da Europa das nações, prova que pretendia tornar mais competitiva a Europa futebolística, entretida com particulares sem emoção nos dois anos que intervalam cada Mundial, apenas reuniu 16 selecções, onde logo á partida se destacou o “bloco de leste”, então científica força emergente, o ideal socialista em torno de uma bola de futebol. O mundo político, não ficaria, no entanto, á margem das quatro linhas e, friamente, condicionou as disputa da prova. Entretanto, nos relvados, uma homem, todo vestido de preto, aproveitava para dar um novo sentido á vida entre os postes. Era russo e chamava-se Yashine. A partir dele, a vida dos guardiões das balizas nunca mais voltou a ser a mesma.

A evolução táctica moldou-lhes a postura, as diversas escolas moldaram-lhe o estilo, mas o legado da “aranha negra”, nome porque ficou famoso, permaneceria sempre como a suprema referência de uma forma superior de estar na baliza. Mais do que um grande guarda redes que só com as suas defesas ganhava jogos, Yashine foi um inovador, não se limitou a ser um elemento á margem do jogo da equipa, preso ás redes, para passar a ter uma participação mais activa, saindo da baliza, orientando a defesa, sendo o primeiro jogador a lançar o contra ataque. Quando toda a Espanha, ansiava por ver os triunfos clubísticos do Real Madrid, projectados na sua selecção, o olhar político fixou-se no rectângulo verde e a Ditadura de Franco arrepiou os cabelos perante o confronto que os quartos de final ditaram que seria com a comunista URSS de Yashine, e, hipócrita, proibiu a deslocação do onze espanhol a Moscovo.

Após este incidente sócio-politico, a fase final, nos relvados franceses, quase se tornou uma cimeira futebolística de leste. Para além da latina França e da URSS, as meias-finais reuniram outros dois onzes congeminados atrás da cortina de ferro: A enigmática Checoslováquia do pequeno driblador Masopust, e o bando de ciganos da outrora unida pátria de Tito, a Jugoslávia, que, logo no primeiro jogo, guiados, no glamour pós guerra de Paris, pela pequena serpente Sekularac, líder de um onze onde moravam monstrinhos como Kostic, Jusufi e Galic, afastaram a França, 5-4, que ainda inebriada pelo 3ºlugar no Mundial-58, pensou que a Final era já ali, e decidiu não alinhar Fontaine, Kopa e Piantoni, estrelas maiores do seu dourado futebol dos anos 50.

A final, quatro dias depois, no Parque dos Príncipes, tornou-se assim num confronto quase confidencial. Apenas 17 mil pessoas assistiram á coroação futebolística do sistema soviético, que depois de bater, sem grande problema, a irmã checa por 3-0, derrotou no jogo decisivo o onze jugoslavo, 2-1, impulsionada pelo maestro Igor Netto, o organizador de jogo num onze onde também brilharam outros nomes que fizeram a glória do futebol soviético no inicio dos anos 60, Metreveli, O primeiro Europeu, não fora, assim, um grande sucesso. Henry Delauney, eu falecido dois anos antes, não pudera assistir ao torneio que sonhara organizar, teria por certo imaginado algo diferente, com outra moldura humana e receptividade internacional. Fiel ao sonho paternal, o seu filho Pierre, tudo fez para o tornar real.

A verdadeira dimensão do projecto da família Delauney só seria atingido alguns anos depois, até se tornar, de corpo inteiro, a partir dos anos 70, na segunda prova de selecções mais importante do calendário internacional, logo a seguir ao Mundial. Em 1960, ainda deslumbrada com a mágica selecção brasileira que dois anos antes, na Suécia, conquistara o Mundial com o renovado sistema de 4-2-4, inventado anos antes pelos húngaros, em Wembley, nas barbas dos ingleses, que então pensavam ser o “WM” invencível e definitivo, a Europa atravessava um período, digamos, de transição táctica.

A presença dos grandes jogadores magiare e canarinhos, tornara o sistema aparentemente ainda mais temível e idolatrado, responsável pelo fim do mito da diagonal. Entre os jogadores, nada mais pacífico do que afirmar que este fora o Europeu de Yashine, que surpreendera toda a Europa, e em breve todo o Mundo, com o seu novo conceito do posto de guarda redes. JOGADOR ESTRELA: MASOPUST (CHECOSLOVÁQUIA) JOGADOR REVELAÇÃO: YASHINE (URSS) GOLEADOR: BUBERNIK (CHECOSLOVÁQUIA), FONTAINE E VINCENT (FRANÇA) 5 GOLOS (Fase Final+Elim.)

A EUROPA DE CALÇÕES E CHUTEIRAS

Anos 50. O te1960 I TAÇA DAS NAÇÕES VENCEDOR URSS1mpo dos pachorrentos barcos a vapor já estava há muito para trás. O “Velho Continente” futebolístico olhou a Copa América do “Novo Mundo” e sentiu o desejo, e a obrigação que o passado pioneiro lhe impunha, de organizar prova semelhante no palco Europeu. Começou por chamar-se Taça das Nações da Europa. Em 1968 passou, definitivamente, a intitular-se Campeonato da Europa de selecções. Observando as suas edições pode-se vislumbrar a evolução táctica e técnica do futebol europeu e os seus diferentes ciclos de poder.

Do frio bloco de leste, expresso nas velhas URSS e Checoslováquia, hoje desmembradas, á explosão do futebol força germânico nos anos 70, passando pelo fabuloso Futebol Total, até aos clássicos dilemas estéticos latinos, cujo ego se elevou nos anos 80, com a belle epoque da França de Platini, um mundo de paixões futebolísticas percorreu o Velho Continente. Na alvorada do novo século, quando as fronteiras se esbatem, restam as selecções para que o confronto de estilos, grande aliciante dos torneios internacionais, ainda espelhe o universo de contrastes da Europa do Futebol. Na hora do arranque da edição do ano 2004, a memória das 11 edições que repousam no passado e fazem a História do “Europeu”.

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