1964: II TAÇA DAS NAÇÕES;VENCEDOR: ESPANHA

01 de Junho de 2000

Por todo o mundo, o futebol tornava-se, cada vez mais num caso sério. O crescente profissionalismo exigia uma nova dinâmica competitiva por parte de todas as nações. Neste contexto, a Taça da Europa de Nações passou, aos poucos, a ser vista com outros olhos. No arranque do biénio 62/64, apenas a RFA de Herberger, entre as grandes potências da bola, teimava em não lhe dar confiança, mas a presença da Itália e da Inglaterra dava-lhe, por fim, o estatuto de grande torneio internacional. No Mundo, o futebol do Brasil continuava lindo.

Na Europa, os ventos de leste continuavam fortes, a nível de selecções. Dois anos antes, a Checoslováquia de Masopust chegara á Final do Mundial-62, e embora, a Hungria e a URSS evidenciassem menor poderio colectivo, as selecções latinas continuavam distantes do fulgor dos seus clubes. O sotaque castelhano do Euro-64 mudaria o cenário. Ironia do destino, a Final voltava a lançar a sombra política, astutamente afastada meses antes do inicio da fase final pelo então dito renovador líder soviético Krustechev, que encolheu os ombros á arrogância de Franco quatro anos antes, e permitiu que a selecção soviética rumasse a Madrid para jogar futebol. O jogo decisivo voltava a reunir Espanha e URSS.

Nas “quatro linhas”, foi a consagração do futebol tauromáquico que levou ao delírio a aficion espanhola, apaixonada pelo perfil torero dos seus futebolistas, orientados, no banco, pelo duro José Villalongan, e, no relvado, por Luisito Suarez. A fúria conhecia a glória. Já se disse, porém, que tal definição nunca correspondeu a um estilo de jogo, antes era, uma forma de definir a aguerrida atitude competitiva hispânica. Tacticamente, os espanhóis, que após o fracasso do Mundial do Chile haviam despedido o defensivo Helénio Herrerra, sistematizaram o 4-2-4, modelo estratégico dominante no fim dos anos 50 e inicio dos 60, até ao eclodir do “Cattenacio”, e que, no caso espanhol, se estendia desde o guarda redes basco Iribar, herdeiro do mítico Zamora, até ao destemido avançado centro galego do Real Madrid, Amâncio. Para a eternidade ficou o golo de cabeça de Marcelino, em voo de peixe, a cinco minutos do final, colocando a bola a meia altura, quase a tirar tinta do poste esquerdo da baliza de Yashine, que confiante no golpe de vista abriu os braços como que dizendo não haver perigo. Estava enganado, a bola só pararia no fundo das redes e a Espanha era campeã da Europa.

Numa altura em que a música dos Beatles começava a invadir a Europa dos sessenta, um espanhol com perfil de actor de cinema mudo, com o cabelo coberto de brilhantina, Luis Suarez tornava-se no futebolista europeu de maior destaque. No mesmo ano, em que vencia a Taça da Europa das Nações e a Taça dos Campeões Europeus, como o Inter de Milão, era também eleito o Bola de Ouro de melhor jogador europeu do ano de 1964. Luisito era um arquitecto, como lhe chamou Di Stefano, excelente conduzir a bola, veloz e com imprevisíveis mudanças de velocidade.

Olhando para trás, fica a sensação que, no seio do aguerrido futebol espanhol, talvez lhe faltasse um pouco de temperamento. A URSS confirmava-se, no entanto e apesar da derrota, como a grande força do futebol europeu, a nível de selecções, na primeira metade dos anos 60, reunindo grandes jogadores que, nas duas primeiras edições da Taça das Nações, orgulharam a pátria dos sovietes sempre ávida de encontrar símbolos que ilustrassem o nível superior da sociedade socialista que diziam construir. Uma imagem espelhada em valores como Igor Netto, Yashine, Metreveli, Ilyin, Simonian e Tschislenko, entre outros, confirmada dois anos depois com o 4º lugar no Mundial-66. Depois desta década , seguiu-se a travessia do deserto dos anos 70, onde apenas surgiram no Euro-72.

A última participação da URSS no Mundial seria em 70, no México. Depois, só nos anos 80, voltaria, ao topo do futebol mundial, numa altura em que, finalmente, reencontraria um estilo próprio. O chamado futebol científico. Até lá, como explicava Yashine que abandonou os relvados em 1969, cometeu-se o erro de imitar o fazer depender o jogo soviético das tácticas que ciclicamente vencedores como a Holanda e o Brasil utilizavam, levando o estilo russo a cair numa profunda crise existencial.

Em 1964, porém, depois do relativo insucesso da pioneira competição de 1960, a memória de Henry Delauney recuperava algum conforto. Depois dos 18 mil anónimos espectadores de quatro anos antes, a final entre a Espanha e a URSS reunira cerca de 80 mil espectadores no “Santiago Bernabéu” que, num clima de verdadeira loucura colectiva, vitoriou os seus heróis. JOGADOR ESTRELA: LUIS SUAREZ (ESPANHA) JOGADOR REVELAÇÃO: MARCELINO (ESPANHA) GOLEADOR: MADSEN (DINAMARCA) 5 GOLOS (Fase Final+ Elim.)

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