1988:VIII CAMPEONATO DA EUROPA VENCEDOR: HOLANDA

01 de Junho de 2000

O REGRESSO DA LARANJA MECÂNICA

Uma das maiores injustiças do século futebolístico é o facto da Holanda nunca ter vencido um Mundial. Nesta perspectiva, o triunfo no Europeu-88, no mesmo local onde 14 anos antes dera ao mundo o esplendor do Futebol Total, e revolucionária toda a abordagem táctica futura do jogo, era, no fundo, um pequeno ajuste de contas com a História da bola. Para tornar mais justo o refazer do conto, Rinus Michels, agora mais velho, com 62 anos, voltava a estar sentado no banco. Os revivalistas apressaram-se a divulgar o renascimento da Laranja Mecânica. No relvado já não estavam Cruyyf, Krol e Neeskens, mas estavam Gullit, Rijkard e Van Basten. No mesmo tempo assistia-se ao renascimento do futebol soviético.

1988 VIII CAMPEONATO DA EUROPA VENCEDOR HOLANDAÁ frente da URSS estava então o cientista de Kiev, o ucraniano Valery Lobanovsky, que diziam os analistas admiradores do jogo colectivo e mecanizado dos soviético, estava tão só a preparar e antever o “Futebol do ano 2000”. Chegados ao fim do milénio, com Lobanovsky, o homem que nunca sorri –quer esteja a ganhar ou a perder ao seu semblante permanece imperturbável- de volta á sua Ucrania, a imagem que fica desse tempo do futebol soviético não revela um cariz tão precursor, mas a verdade é que sem essa raposa de laboratório ele hoje nada seria. Fica a memória do talento, entre outros, de Mikhailichenko, Zavarov, Protasov e Alejnikov. Todos eles, caído o muro e abertas as fronteiras, rumaram a Itália, então meca principal das grandes estrelas. Apesar de talentosos, nunca atingiriam, porém, grande nível exibicional fora da selecção. O caso mais evidente desta realidade foi o do veloz avançado Belanov cuja inscrição na lista dos melhores jogadores europeus, em 1986, ainda hoje causa algum embaraço.

Foi uma estrela fugaz que só durou dois, três anos. Depois de sair do Dinamo Kiev tentou o futebol alemão, mas pouco tempo depois já jogava, incógnito na IIª Bundesliga. Assim, grande símbolo dessa época, permanece o guarda redes Dassaev, herdeiro da memória de Yashine. Como a aranha, Dassaev tinha uma presença fabulosa na baliza. Fazia defesas espectaculares com uma facilidade impressionante. Onde outros voavam ele esticava o braço, e embora não tenha sido um inovador como Yashine, foi, sem dúvida um guarda redes fabuloso.

A final contra a Holanda, depois de afastar a jovem Itália de Vicini, que nesse ano lançava na squadra azzurra, a geração de Vialli, Mancini e Maldin, comprovou o renascimento da Laranja Mecânica, selado com um golo do outro mundo, obra de VanBasten, o goleador da prova que começara no banco depois de Ter passado a época anterior quase sem jogar devido a uma lesão. Apesar disso, Rinus Michels, consciente do seu valor, apostou nele, mas colocou Bosman a titular. Após o primeiro jogo, que, ironicamente, perdeu frente á URSS, na fase inicial, 0-1, decidiu colocar Van Basten em campo com a camisola nº9. Cinco golos nos quatro jogos seguintes provaram o valor do ponta de lança holandês bailarino holandês que parecia corre nas pontas dos pés e quase levantava voo para cabecear a bola, revelando todo o seu poder no jogo aéreo.

1988 VIII CAMPEONATO DA EUROPA VENCEDOR HOLANDA1Sistematizada num elástico 4-4-2, com um líbero fora e série, Ronald Koeman, que no PSV campeão europeu nesse ano, era pura e simplesmente o melhor defesa, o melhor médio e o melhor avançado, a Holanda ganhou consistência defensiva. No meio campo estava o seu irmão mais velho, Erwin Koeman, o experiente Muhren e o tecnicista Gerald Vandenbeurg, cujo estilo meio brasileiro tal era a forma artística de tratar a bola levou a imprensa a chamá-lo de Geraldinho, num sector que não contou com Rijkard, entretanto recuado para central por Michels. No entanto, com o seu valor e classe, conduzia a bola por entre uma floresta de adversários com a mesma tranquilidade com que corria numa praia deserta, Rijkard fez o lugar com a eficácia e a beleza dos grandes jogadores. Ora fazia um tackle durinho, ora saía a jogar com a cabeça levantada. Para além de arrumar a casa, a seguir decorava-a com flores. O homem a erguer a Taça seria, no entanto, o carismático capitão com cabelo á Bob Marley: Rudd Gullit. Tal como Rijkard era um produto da antiga colónia holandesa, o Suriname, de onde, ao longo dos tempos, a Holanda retirou grandes jogadores, desde os dois heróis de 88, até outros como Thamata, Winter, Menzo, Siloy e o actual ponta de lança do Barcelona e da selecção laranja, Kluivert. Gullit era uma força da natureza. Foça e técnica ao som do reagee.

Um futebolista em forma de arranha céus. Uma personalidade forte, dentro e fora do campo, capaz de levantar o animo á equipa quando as coisas não corriam bem, transportava a bola, em passadas largas, por todo o campo, e ainda surgia, na área, em situações de finalização. Finalmente, com a Taça da Europa nas mãos a Holanda punha ordem na história do futebol. JOGADOR ESTRELA: GULLIT (HIOLANDA) JOGADOR REVELAÇÃO: KOEMAN (HOLANDA) GOLEADOR: VAN BASTEN (HOLANDA) 5 GOLOS (Fase Final)

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