1992:VIII CAMPEONATO DA EUROPA VENCEDOR: DINAMARCA

01 de Junho de 2000

O CONTO DE FADAS DINAMARQUÊS

Um romancista interessado em escrever um conto de fadas passado nos cenários do futebol europeu, encontraria o argumento perfeito na história do triunfo da Dinamarca no Europeu-92. Num tempo em que a frieza das ideias tomava conta da sociedade desportiva, os escribas que assistiram á saga dinamarquesa deram mais corda á Lenda. Alguns anos passados, sabe-se que, afinal, aqueles onze dinamarqueses não estavam bem na praia em férias e foram chamados á ultima da hora para jogar o Europeu, após o afastamento político da Jugoslávia. Muitos quiseram logo tirar conclusões sobre o inconvenientes dos longos estágios, mas, na verdade, como muitos jogadores confirmaram nos anos seguintes, aquela Dinamarca estava preparada para jogar o Europeu. “Todos os jogadores tinham de estar contactáveis.

A Federação avisara-nos que o mais provável era Jugoslávia ser afastada e nós tínhamos de estar preparados”, revelou Vilfort, anos depois. Inimaginável, no entanto, seria a posterior conquista do título. Do dinamite do Euro-84 já não restava nenhum jogador. Podia ainda estar Michael Laudrup, mas um desentendimento com o seleccionador Richard Moller Nielsen, levou-o a ficar de fora. Jogou o seu irmão mais novo, Brian, e, num ápice, a renovada Dinamarca fazia a Europa abrir os olhos de espanto. Na frente de ataque um lutador que parecia sempre perto de desmaiar esgotado, Polsven, apoiado por um meio campo mestre em esconder a bola, onde se destacaram Olsen e Vilfort.

A tranquilidade da defesa era garantida com a presença entre os postes do morcego gigante Schmeichel, que assombrava com os seus longos lançamentos com a mão, lançando o contra ataque. Do ponto de vista táctico, esta sensacional Dinamarca seguiu as tendências pouco imaginativas da época e jogou num clássico 4-4-2. A diferença teria de ser feita pela entrega dos jogadores ao jogo. Pela chamada dinâmica da táctica.

Seria um Europeu estranho, com a atípica presença de uma selecção sem pátria: a chamada CEI, Comunidade de Estados Independentes, que era tão só o nome atribuído á anterior URSS, cuja selecção conquistara em campo a qualificação. Á margem dos relvados, o Império soviético desmoronou-se e a UEFA, depois de resolver, de forma discutível, o problema-Jugoslávia, adoptou esta denominação transitória. A RFA, sem brilho, voltou a chegar á final. A França treinada por Platini, surgiu, após uma fase de apuramento só com vitórias, em clara perda de fulgor, naquele que seria o único grande torneio internacional onde jogaria Cantona, caindo frente á Dinamarca no jogo que decidia a passagem á meia-final.

A Holanda do futebol moralmente superior surgiu ainda com a base de 88, reforçada com Bergkamp, mas desde o primeiro jogo, com Rinus Michels ainda no banco, com anos, pareceu sempre desmotivada, enquanto que a Inglaterra de Graham Taylor, carente de Gascoigne lesionado meses antes, balançava preso entre duas gerações, sem contar com um grande jogador que fizesse a diferença. Ainda teve esperança na acção de Platt, mas para a história a imagem que fica desta “Velha Albion” no Euro-92 é a de Lineker, sentado no banco, encharcado em suor com o olhar embaciado perdido no horizonte, depois de ser substituído a meio da segunda parte do crucial jogo com a Suécia, naquela que seria a sua última partida com a selecção inglesa. Dirigida por Tommy Svenson, a nacional sueca apostou muito neste seu Europeu. Finda a época de Stromberg e Hysen, as novas esperanças vikings moravam num guerreiro baby face, Brolin, num defesa exímio no jogo aéreo, Ericksson, e em dois operários do meio campo que o Benfica não esquece, Schwarz e Thern.

A ambição sueca seria travada na meia-final pela eterna Alemanha, agora reunificada, onde Berti Vogts, lateral direito da equipa campeã do mundo em 74 surgia, após anos á frente das selecções jovens, no banco, com a responsabilidade de substituir Beckenbauer, campeão do mundo em 90. Longe das demolidoras exibições do passado, a Manschaft manteve o seu estilo glacial, espelhado no iceberg do meio campo Effenberg. Sem deslumbrar, manteve o ritmo da sua trituradora, que, desta vez, ganhou dimensão vitoriosa nos livres de Thomas Hassler, um ilusionista com a bola nos pés, e no ponta de lança voador Riedle, um predador dos espaços vazios. Até hoje, a vitória da Cinderela Dinamarca, em 92, surge sempre como exemplo de que nos insondáveis desígnios do futebol tudo é possível... JOGADOR ESTRELA: BERGKAMP (HOLANDA) JOGADOR REVELAÇÃO: BRIAN LAURUP (DINAMARCA) GOLEADOR: LARSEN (DINAMARCA), REDLE (ALEMANHA), BROLIN (SUÉCIA) 3 GOLOS (Fase Final)

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