1996:X CAMPEONATO DA EUROPAVENCEDOR: ALEMANHA

01 de Junho de 2000

ONZE DE CADA LADO E OS ALEMÃES GANHAM

As duas últimas Taças do Mundo foram levantadas por dois trincos, Dunga e Deschamps. As duas últimas Taças da Europa, foram levantadas por dois pontas-de-lança, Polsen e Klinsmann. Simples acaso ou subtil indicador de alguma tendência táctica? A verdade é que, no limiar do século, dos últimos grandes torneios internacionais de selecções ficou uma sensação de vazio, vulgaridade até. Tacticamente, o 4-4-3, uma variante do 3-5-2, parece ser hoje a proposta técnica mais atraente, numa época em que o medo de perder suplantou claramente a vontade de ganhar. Depois da Holanda de 88 e da Dinamarca de 92, o Euro.96 voltou a imperar um estilo de jogo calculista, hipotecado aos lances de bola parada e com segurança defensiva a ser a base de qualquer estratégia.

A pragmática palavra chave passou a ser disciplina táctica. O que está primeiro numa equipa de futebol? Ordem ou talento? Para Aimê Jacquer, o discutido seleccionador francês a ordem á a base de tudo. Por isso, os amantes do futebol-paixão assistiram com o coração partido, a uma pobre meia final, em Manchester, entre a Republica Checa e a teorica França de Cantona, como Old Traford ás moscas. Nas bancadas quase vazias, esvoaçavam algumas bandeiras tricolores com a ace de Eric, The King. Com ele em campo, não custa crer que o “Teatro dos Sonhos” estaria repleto, de franceses, loucos pelo futebol e ingleses devotos do Enfant Terrible, num tempo em que já dizia e lia em escaparates pela cidade que “1966 foi um grande ano para o futebol inglês: Foi o ano em que Cantona nasceu”. Temendo o seu carácter, Jacquet virou-lhe as costas e fechou-lhe a porta da selecção. Perdeu o futebol, perdeu o Europeu, perdeu... a França Na sofrida Itália, o auge da contestação Sachi, que colocou o sistema á frente dos jogadores. No jogo inaugural, com a Rússia, jogou, e bem, com Zola e Casiraghi na frente, ganhou 2-1. Na Segunda partida, com a Republica Checa, apostou em Chiesa e Ravanelli, perdeu 2-1. Sachi disse ter sido apenas necessidades do chamado turn-over, mas a inclemente imprensa italiana, confirmada a eliminação na 1ª fase, não lhe perdoou e exigiu a sua demissão.

O Futebol Total disse que, a partir daquele momento, mais do que mexer no xadrez táctico, na disposição das peças em campo, o treinador devia trabalhar sobretudo sobre a dinâmica da táctica. Desenhado no papel, o idolatrado sistema era um simples 4-3-3. A diferença estava na movimentação dos jogadores em campo, que, dinâmicos, num ápice, se desdobravam em 3-4-3 ou em 4-2-4, confundindo os adversários. Ainda hoje o futebol holandês continua a ter uma ressonância mítica para os amantes do belo futebol: é sinónimo de bom futebol, técnico e ofensivo É, no entanto, abusivo falar no renascimento do Futebol Total. A base do sistema mantêm-se, porém, nos movimentos do futebol holandês, todo ele baseado num principio sagrado do jogo: a posse da bola.

Com a Holanda no relvado, ela fica a conhecer os quatro cantos do tapete verde, tal a forma como gira, gira e gira por todos os jogadores holandeses. 20 anos depois do chapéu de Panenka, outro mago checo voltava a fazer levitar a bola: Poborsky, que nos quatros-de-final arruinou o sonho português e lançou a grande surpresa da prova: a Republica Checa, saída da antiga Checoslováquia agora dividida. A selecção de Dusan Uhrim mantinha as velhas linhas estratégicas do jogo de leste baseado no excelente sentido téctico-posicional dos seu jogadores, que, no entanto, exibiam um maior virtuosismo técnico-indivudial, bem expresso no jogo criativo de Berger, Bejbbl, Poborsky e Nedved, aconselhados por um experiente líbero, o veterano Kadlek, um trinco com o ritmo do futebol alemão, Nemec, e um ponta de lança ágil no remate pelo buraco da agulha, Kuka.

Em pontas dos pés, chegaram á final, jogando num 4-3-1-2 agressivo, com a dinâmica moral que só as vitórias transmitem. Na final, dois golos de Bierhoff, lançado em desespero por Vogts, até então a jogar quase anónimo na Udinesse, da Série B italiana, provaram a irónica conclusão do inglês Lineker, desanimado com a derrota da sua Inglaterra: “O futebol é um jogo simples. São onze de cada lado e os alemães ganham”. O Euro-96 terá sido, no entanto, o ultimo fôlego daquela geração do futebol alemão, envelhecida e com o ritmo cardíaco cada vez mais acelerado. Um ideia confirmada no França-98. JOGADOR ESTRELA: KLINSMANN (ALEMANHA) JOGADOR REVELAÇÃO: NEDVED (REPÚBLICA CHECA) GOLEADOR: SHEARER (INGLATERRA) 5 GOLOS (Fase Final)

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