22 sombras da táctica e um penalty

01 de Julho de 2016

Portugal-Polónia. Como se pode crescer como equipa sem crescer como estilo de jogo. Porque crescemos defensivamente no tamanho de Pepe e agarramos melhor o meio-campo com Adrien-Renato Sanches.

Após o impacto com o "bloco de gelo" islandês, o domínio contra a Áustria, a anarquia com "caos defensivo" contra a Hungria e o "jogo de expectativa" contra a Croácia, a seleção surgiu contra a Polónia desenhando-se entre sistemas.

1.

Adrien e Renato Sanches são estruturalmente jogadores de corredor central mas dificilmente poderiam ganhar esse protagonismo quanto em campo também está João Mário numa movimentação híbrida entre a ala e centro, clássico e losango. Quando aparecia no centro nas costas dos avançados tudo ficava mais claro na transmissão de uma ideia de jogo. Ou seja, sem um 10, vértice ofensivo claro, o losango nunca se desenhava e dava lugar a uma "linha de 3" vagueando atrás dos dois avançados (sem conseguir ser 4x3x3). Sofrer um golo logo a abrir causou maior incerteza, até se questionar em que sistema, afinal, estava afinal a jogar Portugal.

Quando o bloco polaco recuou e Portugal subiu a zona de pressão dessa "linha de 3" Renato-Adrien-João Mario (4x1x3x2) passamos a ter a bola e o jogo em cima do meio-campo adversário. O perigo tinha então de nascer daquele com maior "poder de ruptura" dos três: Renato Sanches, como no empate desenhado com uma tabela-calcanhar com Nani. Estabilizando a dinâmica do nosso jogo posicional passamos a mandar no jogo. Controlando o contra-ataque adversário pela forma como impúnhamos o nosso ataque continuado. Podia-se pedir mais criatividade ou movimentos imprevisíveis mas a arte táctica mais adiantada está em saber que o jogo passa por diferentes momentos e o de desequilíbrio/desgaste polaco poderia surgir mais à frente.

2.

por-pol3
O arranque da segunda parte "estendeu" mais o jogo no campo todo. O bloco polaco tentou subir mas sem descobrir profundidade bem controlada pelo posicionamento português e o jogo rápido de Pepe quando a bola ameaçava cair nas costas da nossa defesa.
A Polónia parecia subir nos espaços que deixávamos no meio-campo. Sem engatarmos um ataque rápido o campo tinha de "encurtar" outra vez para jogarmos o nosso jogo ofensivo com bola/posse. A tal "linha de 3" (refrescada depois com Moutinho no lugar de Adrien e Danilo no de William) continuava na "torre de controlo táctico do jogo".

Parecia que o jogo podia se inverter nos estilos e o contra-ataque ser mais a arma ofensiva de Portugal do que da Polónia confrontada sem o espaço para meter o jogo acelerado que gosta para os seus extremos. O jogo caíra num ritmo global mais lento do que o imaginado para o estilo das duas equipas.
A entrada de Quaresma, um elemento subversivo, podia mudar e revolucionar todo este "status". Ao mesmo tempo metendo Kapustka os polacos queriam fechar o jogo em equilíbrios (o possível plano mais defensivo inicial surgiu a meio da segunda parte) não o deixando ir para o "território mustang" face ao seu crescente desgaste físico.

3.

O prolongamento tinha pouco de ameaça para o jogo português. Era difícil imaginar como podia a Polónia crescer nele (até já tinha tirado Grosicki). Só no plano da resistência e disciplina posicional sem bola (tinha metido Kapustka e meteu um novo trinco Jodlowiec) para chegar até aos penaltys.
O poder de Portugal marcar a diferença nesta fase seria determinado pelo seu poder individual de desequilíbrio. Tirar o poder táctico a Krychowiak e conquista-lo com os nossos médios para Ronaldo e Nani. Não foi possível. O prolongamento teve, assim, tacticamente um nome e duas pernas: Kapustka. Os polacos meteram o jogo nos penaltys mas não meteram o resultado.

A máscara de esforço de Kuba no momento decisivo, a defesa de Rui Patricio e o destino escrito por Quaresma, sem tremer. O jogo emocional todo decidido nos penaltys. Uma Europeu escrito nas estrelas na sombra da táctica.