Arouca-Benfica: as duas fórmulas

11 de Setembro de 2016

Olhar para um jogo quase como um desafio ao impossível no plano de montar um dos sectores sem nenhum dos habitantes de raiz. O Benfica sem os seus três  avançados-centro: Mitroglou, Jiménez e  Jonas. Como montar o ataque? Improvisando alas no centro, lançando um miúdo promessa de 17 anos ou inventando novas fórmulas? Rafa- Gonçalo Guedes começaram o jogo à procura de saber como se interligarem. Perceber que espaços existiam e em que  espaços deviam  interagir. Ou seja, perceber as marcações adversárias conhecendo-se ao mesmo tempo um ao outro.

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A forma como Rafa pedia a bola sem receio, desde o início, marcou a sua primeira aparição de personalidade no onze encarnado. Gonçalo Guedes soube perceber que tinha de ser Rafa a ter essa maior liberdade de movimentos e procurou mais a essência do passe. Com essa ligação, o meio-campo pôde respirar tranquilamente dentro das rotinas habituais.

Este Arouca de Lito abordou o jogo com nuances estratégicas que mudaram a face habitual da estrutura da equipa no meio campo. Desfez o duplo pivô Nuno Coelho (recuado para central)-Adilson e criou uma nova ideia de meio-campo que nunca conseguiu definir uma zona de pressão, com Artur e Crivellaro posicionados à frente de André Santos num 4x1x4x1 expectante. Sem bola e só procurando uma bola longa, a estrutura funcionava apenas estática. Em movimento abria e a superfície de passe existia sempre para o meio campo do Benfica, onde também apareciam Pizzi e sobretudo Salvio no último passe.

Crivellaro tem técnica no corpo todo. Como toca na bola, passe ou remate, e como se move para encontrar a melhor forma de se enquadrar com o jogo e os espaços por entre a outra equipa. Não é rápido mas sabe onde deve estar e isso faz com que não tenha correr tanto para chegar a esse sítios porque...já lá está de origem. Só é preciso que depois a bola lhe chegue. Na estratégia fachada de Lito acabou naturalmente por sair.

O Arouca quis inventar um novo sistema, estratégia e posicionamentos para os seus jogadores com a intenção de confundir o Benfica, mas acabou mais por confundir a própria equipa nesse labirinto. Nem pressionava, nem recuava para fazer a organização defensiva de forma rápida e eficaz, até ao ponto da sua identidade deixar de existir. Queria meter mais jogadores a meio-campo mas eles, nesse esquema, jogavam/posicionavam-se tão recuados que isso não se notava. Tinha, no fundo, mais jogadores em cima da defesa e o meio-campo desterrado.

Seria este Arouca capaz de se reinventar para a segunda parte? Mudando os donos das casas tácticas, devolvendo-as aos seus donos naturais, com Nuno Coelho a pivot, e a entrada de Walter Gonzalez, a prova de como é sempre nos melhores jogadores que se escondem as melhores tácticas. Fez um golo e reabriu um jogo que depois o benfica fechou com Samaris junto de Fejsa e Pizzi a vir pegar por dentro.

Dois jogos diferentes dentro do mesmo jogo que mostraram uma nova expressão de Rafa e um paraguaio que tem de jogar mais em Arouca, Walter Gonzalez. Formas de atacar olhando os espaços e a baliza como se os defesas fossem apenas burocracias para ultrapassar através da finta ou da agressividade da técnica.