20 de Março de 2017

Esta ansiedade não é a mesma que cantava Nat King Cole “ansiedade de tenerte em mis brazos, mussitando palavras de amor”. Esta ansiedade é outra, nada afectiva mas terrivelmente sufocante. Pode acontecer em tudo na vida. A uma equipa de futebol, inclusive. Até a duas, no mesmo quadro de ansiedade competitiva. Sucedeu a Benfica e FC Porto, com o clássico no horizonte, ambas devoradas por esse sentimento estranho. Noutras situação, lidariam com os mesmos jogos como gatos com novelos de lã.

No contexto da ansiedade não afectiva mas tática e tecnicamente sufocante leva a outros sintomas: precipitação, irritabilidade, descontrolo. Querer fazer tudo depressa e até dizer coisas sem sentido (entenda-se jogar de forma diferente daquela em que habitualmente jogam melhor).

Quando perto do fim, Nuno lançou um ponta-de-lança de quem já ninguém se lembrava (a entrada do corpulento Depoitre para a área) vindo de outro tempo na época do FC Porto (o tempo em que faltava afinar os princípios de jogo para a ideia em 60 metros) assumia como, naquele momento, equipa estava nos braços da ansiedade. A cabeça também.

Até ao último minuto nunca se pode perder a coerência táctico-técnica que nos tornou mais fortes. Por isso, nessa parte final, fazia mais sentido do que nunca circular, organizar, ter a bola nos pés de Otávio (que tinha entrado na linha da ideia) e, no fim, ganhar, empatar ou perder fiel à ideia. A equipa não conseguiu, porém, fugir a esse monstro da ansiedade.

Antes, o Benfica, em Paços de Ferreira, entrou em campo para jogar mas à medida que foi pisando o relvados nos primeiros minutos dava-se uma circunstância estranha: não via a equipa adversária! E, assim, pegou na bola e foi em direção à baliza, à procura do golo, até que de repente a descobriu. Estava encostada com os médios quase pendurados nos defesas junto à sua área. O jogo encurralado em 30 metros.

O onze encarnado jogou, atacou, pressionou, circulou dentro das suas rotinas que já caíram na... rotina, rodeando aquela “mancha amarela”. Mas com um problema a crescer: repetia jogadas e mesmo quando Rui Vitória faz substituições (trocando extremos e metendo mais um ponta-de-lança, Jiménez) muda a equipa mas não muda a... forma de jogar. E a rotina tornou-se ansiedade.

Os dois jogos acabaram empatados como à medida que o tempo passava esse destino parecia inalterável. Era quando mais do que ideias de jogo, via-se a ansiedade a comer cada pensamento, cada finta, cada passe.

Quando uma equipa cai nessa trituradora mental de jogo, o “desbloqueador de ansiedade” (mesmo numa jogada individual) torna-se quase impossível de descobrir. Ansiedade sem romantismo musical, só frieza futebolística.