Tal como no seu tempo foi o 4x2x4, o 3x5x2, apesar de ser um sistema aliciante, exige, para funcionar, um must de jogadores foras-de-série, sobretudo nas faixas laterais. Para além disso, impõe, para total eficácia, três defesas e um trinco muito rápidos a dobrar nos flancos. Sem esses elementos-chave, dificilmente poderá sair do papel, provando, mais uma vez que os jogadores estão primeiro que o sistema. Desta forma, sem essa universalidade subjacente, dificilmente um sistema poderá marcar época. Apesar de ser estruturalmente um técnico defensivo, Cuper sentiu-se atraído por testar esse sistema no seu Inter. Na hora de decidir, porém, manteve o 4x4x2. Em campo, no entanto, o sistema revelou uma novidade táctica que, na prática, se traduz numa defesa híbrida, que tanto se pode escalar a «3» como a «4», conforme a dinâmica de movimentos dos seus elementos, onde desde logo, surpreendeu ver Canavarro, um central clássico, como defesa direito. O pormenor reside no avanço de um lateral, Coco, na esquerda.
Assim, quando perde a bola, conta sempre com uma linha de defesa a «3» muito forte, pois Canavarro flecte um pouco no terreno. Se o jogo ditar maior rigor defensivo, regressa á inicial defesa a «4», com Coco atrás. Tudo controlado, como uma marioneta, desde o banco, pelos dedos de Cuper. No presente, quando se fala em equipas dinâmicas e rápidas, sempre dispostas a circular velozmente a bola e a aproveitar o adiantamento dos adversários e a aparição de espaços vazios, a minha mente de imediato se lembra de quatro casos: Real Madrid, Manchester United, Bayern Munique e Arsenal. Tacticamente, jogam todos, com uma linha de defesa de quatro elementos. Na Roma, Capello, utiliza, desde há três épocas, o 3x5x2. Contra o Real Madrid, porém, sem Totti, mudou pela primeira vez o esquema e jogou em 4x4x2, mas com o pecado táctico de inserir os antes laterais ofensivos Cafu e Candela no meio campo. Sem os tais 30 metros para correr, ficaram irreconhecíveis e o jogo do onze, com mestre Guardiola no banco, perdeu profundidade. Isto é, na hora da mudança, Capello, genuinamente italiano, pensou, pensou, e ficou refém do Cattenaccio. É por isso, que naquela definição de belo futebol, não cabe, muito naturalmente, nenhuma equipa italiana.
O sonho de Wenger e a rebeldia de Kluivert e Saviola
Uma das mais belas provas que é o génio dos jogadores e não os complicados sistemas tácticos que ganham jogos sucedeu, domingo passado, em Bilbao, no divinal lance entre Kluivert e Saviola, uma obra de arte com dois chapéus altos, curtos e subtis, que, por entre uma floresta de adversários, deu o segundo golo ao Barcelona do tacticista Van Gaal. No fundo, este lance prova que, por mais que os técnicos o amarrem tacticamente, o verdadeiro talento encontra sempre uma saída. Saviola e Kluivert são mestres em descobrir, no relvado, essas passagens secretas. Observando essa busca incessante destes dois ilusionistas da bola, em S.Mamés ou no Nou Camp, contra o Brugge, não é exagero afirmar que, neste momento, o Barça não ganha por Van Gaal, mas apesar de Van Gaal. Renunciar ao talento dos jogadores em nome de um sistema de jogo é absurdo.
Noutro ponto, questiona-se se o Arsenal de Wenger, demolidor internamente, será capaz de triunfar esta época na Europa? Esta é a sua 5ª participação consecutiva na Liga dos Campeões, onde nunca passou dos ¼ final, ocupando, actualmente, o 7º lugar no Ranking UEFA de clubes e o 2º no da FIFA, em 2002, atrás do Real Madrid. Diz Wenger que o seu sonho é ver este Arsenal jogar um «futebol perfeito», como o Ajax dos anos 70. Neste início de época, a equipa, em 4x4x2, tem, de facto, nos movimentos do eixo meio campo-ataque, atingido fases de perfeição, resultado da sagrada aliança francesa-holandesa, com Vieira, Bergkamp e Henry apoiados pelo relógio de cuco brasileiro Gilberto Silva e pelo guerreiro sueco Ljungberg. Para sonhar com a perfeição, falta-lhe, no entanto, classe defensiva, o único sector estruturalmente inglês do campeão… inglês, com as torres Campbell e Keown no centro. Nas laterais, Cole está a provar ser o melhor defesa esquerdo que a Inglaterra teve desde o fim de Stuart Pearce, mas, na direita, Luzhny e Lauren carecem de consistência exibicional. Desta forma, será difícil atingir a utopia de Wenger, mas o assalto á Europa está, claramente, ao alcance dos Gunners.





