«A Arte da Guerra»: Na Ilha de Scolari

13 de Setembro de 2007

Há quem acredite que a melhor forma de pensar e estar no futebol é seguir os ensinamentos de A Arte da Guerra. Scolari gosta de o citar e mostrar a capa. Trata-se de um livro de culto que, no fundo, mais do que promover instintos guerreiros, ensina, de forma sublime, como domar e vencer os conflitos da vida de forma inteligente. Apesar das ilusões criadas, entre Sun Tzu e Scolari existe, no entanto, um abismo. Na teoria, nas atitudes e na forma. O futebol é, numa definição sociológica, um jogo de emoções. Nele também entra, naturalmente, o lado lunar do ser humano. Em qualquer cenário, os jogos têm mais do que 90 minutos. Scolari vive, há muito tempo, numa trincheira criada a partir da teoria do inimigo invisível como forma de motivar um exército. E utilizar aqui a palavra exército em vez de equipa talvez não seja totalmente metafórico.

Bertrand Russel escreveu um dia que “aquele que pensar ir chegar o dia em que seja possível abolir a guerra, deveria ao mesmo tempo pensar seriamente em outra meio de satisfazer, de forma inofensiva, os instintos que herdamos de longas gerações selvagens”. Fez esta afirmação, claro, sem pensar no futebol como essa solução, mas vendo toda a postura de Scolari, é pacifico afirmar que o ainda não será o futebol a tal segunda via para seguir esses instintos primitivos. Bill Shankly, mítico treinador britânico dos anos 70, costumava apelar ao carácter dos seus jogadores provocando-os com a série televisiva de que mais gostava, Os Intocáveis. Reunia-os no balneário e perguntava-lhes aos berros: «Vocês pensam que são homens duros? Olhem para estes tipos.

Esses sim, são duros de verdade!». E atirava-lhes com fotografias de James Cagney, George Raft e Edward G. Robinson, actores de sobrolho carregado que ficaram famosos em papéis de gangsters. Não sei o filme preferido de Scolari, mas uma coisa é certa. Ele não é um «intocável».

É, antes do nome, o seleccionador nacional de futebol de Portugal. Quando entra em campo, ele «é» Portugal. Aos olhos do Mundo. Na acção, a quente, e na reacção, a frio, provou que nunca entendeu ou sequer leu Sun Tzu. Provou que até pode ter a dureza artificial de James Cagney mas não a força filosófica de um verdadeiro líder nacional. Como denunciou, até, a eternidade que demorou a ver-se ao espelho e pedir desculpa de um acto que menos de 24 horas antes arrogantemente negara.

«A Arte da Guerra» Na Ilha de ScolariMas, entremos no jogo. O que aconteceu foi mais um empate. Nada de dramático. É futebol. E Portugal continua com o apuramento calmamente ao alcance. Não são precisas calculadoras e milagres. Basta ganhar a selecções de segunda e terceira linha (Azerbeijão, Kazaquistão, Arménia e Finlândia). O problema, pois, não é empatar ou perder um jogo. Mas sim, a forma como esses resultados negativos acontecem. Portugal é hoje uma selecção «tacticamente fossilizada». As dinâmicas do seu jogo estão cristalizadas. Nunca existiu, por exemplo, uma segunda via táctica para, face ás diferentes características do jogo ou do adversário, evitar esta cristalização de movimentos. Os radares defensivos do adversário detectam facilmente a nossa estratégia e encaixa as marcações sem pestanejar. Só a grande capacidade individual dos nossos jogadores é capaz depois de incutir ainda algum traço de imprevisibilidade no jogo português.

A única vantagem é que os adversários até podem saber como Simão, Quaresma ou Ronaldo fintam e rematam. Só não sabem é quando. No fundo, (pensem no golo de desenhos animados de Ronaldo na Arménia ou o livre de Simão frente à Sérvia) eles disfarçam a falta de ideias que é hoje, em termos de pensamento estratégico, a selecção nacional. Esta semana, porém, o impacto da «guerra» fora das quatro linhas superou as tácticas relvados. Sem arte, em ambos casos. Uma selecção sem ideias e um seleccionador enfiado numa «trincheira».

O habitat de Cristiano Ronaldo

«A Arte da Guerra» Na Ilha de ScolariFoi a pergunta da semana sobre Cristiano Ronaldo. Qual a melhor posição na selecção? No centro, como ponta-de-lança, ou na ala, como extremo. Face ao seu poder explosivo, pedindo espaço para arrancar, driblar, passar e rematar, a posição 9 não é, desde logo, a melhor. O local onde melhor explode é desde a faixa flectindo em aproximação à área. O curioso porém, é lembrar que foi Mourinho que, em pleno Mundial 2006 lançou a ideia, então original, de Ronaldo a ponta-de-lança. A meio do jogo seguinte, contra a Inglaterra, Scolari, lembrou-se dessa opção. Sem sucesso, claro. Como se viu outra vez frente a Polónia e Sérvia. Não duvido, porém, que Ronaldo pode ser um fantástico nº9. Só que para jogar numa posição a que não está habituado no clube, onde é extremo, necessita antes de a treinar. Para isso, é preciso tempo. Exactamente o que falta a um seleccionador. Tempo para dar-lhe hábitos diferentes de movimentação. Por isso, Ronaldo a ponta-de-lança será, na selecção, sempre uma adaptação. E uma grande equipa nunca resulta de adaptações mas sim de princípios de jogo solidificados.