A Áustria “bipolar”

15 de Junho de 2016

 

É uma seleção com talento ofensivo e presença táctica na dupla de médios-centro, mas não é uma equipa em quem se possa confiar. Tanto expressa a sua qualidade, como por vezes “adormece” no jogo. Um sensação bipolar que depende muito das características e temperamento dos seus avançados. Numa noite inspirada, o trio que joga nas costas do ponta-de-lança Janko marca a diferença, mas noutras em que a jogada ou a finta não sai, deprime-se e passa ao lado do jogo.

Em 4x2x3x1, tem um rebelde desde a esquerda, Arnautovic (o “Ibrahimovic austríaco”, no estilo e carácter), capaz de rasgos individuais e remates fantásticos após puxar sempre o jogo para dentro e inventar uma grande jogada. É um craque insolente. Aparece e desaparece do jogo, mas quando aparece pode resolvê-lo sozinho. Harnik, a partir da direita, é mais um ala de “picos”, mete velocidade em diagonais e arrasta marcações. A ausência do nº10 deste trio retira-lhe o seu elemento mais colectivo: Junuzovic (lesionado). Não é um organizador, mas pensa melhor o jogo do que os possíveis substitutos, Sabitzer (que, por vocação, é mais um ala desde a direita) ou Schopf, mais forte no um-para-um e nas mudanças de velocidade entrando desde trás, movimento em que é muito forte.

 

Janko e os defesas

Janko é um nº9 cada vez mais apenas de área, inestético, mas oportuno a apanhar as bolas que lhe surgem para rematar ou apenas só “encostar” para a baliza. Move-se pouco, mas está quase sempre no sitio certo na área. Sabe prender os centrais e arrastá-los nas marcações para as diagonais, ou permitir as entradas nos espaços em torno dele de Harnik e (sem Junuzovic) de Sabitzer ou Schopf (este o mais perigoso). Entretanto Arnautovic continua no seu “mundo privado”, à espera do momento certo para explodir.

No plano defensivo, defende melhor com o meio-campo do que com os defesas. A base do onze (chave e cadeado) é o duplo-pivot Baumgartlinger, trinco posicional, muito resistente, que cai em cima de todas as bolas à frente da defesa. Marca, corta e passa. Atrás ou ao lado de Alaba, nº8 ,que segura a posição a defender e sai depois para o jogo, conduzindo e organizando (e também a rematar). Nos seus melhores dias, é um “tratado” vê-lo a trabalhar tacticamente esse corredor central atrás e à frente.

Na linha de “4” defensiva, os centrais são algo lentos (sem Dragovic, deve jogar Prodl ao lado de Hinteregger). Sentem muitas dificuldades perante avançados rápidos a mudar de direção, pois têm pouco jogo de cintura. Necessitam do apoio dos lateais, Klein e o forte Fuchs (que ataca muito bem), mas nesse apoio muitas vezes o flanco fica exposto. É por tudo isto que o processo defensivo austríaco vale essencialmente pelo trabalho posicional (quando já em organização) e de pressão (quando na transição pós-perda da bola) do seu duplo-pivot Baumgartlinger-Alaba.