A babilónia asiática

14 de Janeiro de 2011

A babilónia asiática

O futebol é a mais fantástica babilónia da civilização moderna. NTaça da Ásia, em dias sucessivos, mergulhamos em realidades e atmosferas tão díspares, quase como entrássemos numa thwilight zone do futebol, onde se observa desde o embate entre o multirracial Qatar, país de 250 mil habitantes que vence a China com mais de 300 milhões, até ao exótico choque entre a Austrália, vinda da Oceânia, e a Índia, um verdadeiro enigma futebolístico.

A presença da Índia resulta, explique-se, do peculiar sistema de qualificação da confederação asiática que divide os seus membros em três grupos. Desenvolvidos, em vias de desenvolvimento e emergentes (onde estão os mais fracos). São estes últimos (17) que disputam a chamada AFC Chalenge Cup. Quem vence, ganha lugar entre as mais fortes na Asia Cup. É assim que, depois de bater o Tajiquistão em 2008, a selecção indiana surge nesta fase final. Para tornar a aparição mais romântica, tem no banco um velho caminhante da bola, Bob Houghton, 64 anos, o inglês que em 78 levou o Malmo à final da Taça dos Campeões. Após dez anos na China, radicou-se na Índia desde 2006.

Foi goleada (4-0) pela Austrália, com a dupla de ataque Cahill-Kewell sempre em movimento, num jogo em que as diferenças foram abismais. Em 4x4x2, o onze indiano ainda foi conseguindo manter equilíbrio posicional, mas sem qualquer possibilidade de acompanhar o ritmo e qualidade técnica de jogo, quase nunca chegou ao ataque. Fica a memória do esforçado avançado Chetri.

A jogar em casa, o Qatar sente uma pressão e motivação maior em cada jogo. Perdeu com o Uzbequistão, venceu a China. O onze, treinado pelo trotamundos Bruno Metsu (que fez história com o Senegal no Mundial 2002) é uma multinacional: Sebastian, ponta, de lança, uruguaio; Kasola, lateal-direito, queniano; Wesam, médio, palestiniano; Fabio César, avançado, brasileiro; Lawrende, pivot, ganês; Rápido num flanco, ainda surge Hussain (que passou por Braga e Boavista). O herói que bateu a China foi no entanto um avançado móvel qatari, Yusuf Ahmed, nova estrela do Planeta do Futebol.

O Uzbesquistão é das equipas mais europeias, ainda com traços do velho estilo da URSS, pelo jogo apoiado e de circulação na transição e organização ofensiva. De um jogo para o outro, mudou de 4x4x2 para 3x5x2, com objectivo de melhor preencher o meio-campo sempre com quatro elementos (Haydariv-Kapadze-Shakkikh-Djeparov). O próprio ponta-de-lança Geynrich recua muito para pegar na bola. A China caiu muito nos últimos anos. Detectam-se alguns bons jogadores (os médios Yang H., defensivo, e Deng Z, nº10), mas perdeu a vanguarda do futebol asiático que o novo milénio parecia prometer.

Pelos relvados do Qatar

A babilónia asiáticaA Arábia Saudita provocou o primeiro choque do torneio. Perdeu com a Siria e Peseiro foi despedido. Vendo o jogo, deu a sensação que a equipa entrou demasiado a pensar que este era mesmo só o primeiro jogo e nunca meteu grande velocidade no seu futebol, o que adormeceu o jogo durante muito tempo. Encheu o relvado de médios e acabou surpreendida pelos esticões que o onze sírio meteu no jogo. Na maioria do tempo, a estrela atacante Al Qahtani jogou muito isolado na frente.

Ironia da história, assistir a um Irão-Iraque na relva. O Irão, com Nekonam a mandar a meio-campo desde zonas mais recuadas, é mais equipa (ganhou 2-1) mas o futebol iraquiano tem muito mais valor do que os europeus imaginam. Recorde-se o Mundial-86. Sufocados pelo anterior regime, muitos jogadores nunca apareceram. Entre os actuais, o trio Akram-Hawar-Mahmoud sabe jogar mas olhem para Emda, um avançado móvel que costuma jogar sobre a ala direita. Joga no Shain BushehrFC do…Irão.

Com o decorrer do torneio, iremos vendo mais selecções. Para além da Austrália, vejo a Coreia do Sul e Irão no lote dos favoritos.

Atenção, também, aos gestos técnicos vindos dos Emirados (com o fantástico Ismail Mater) e, claro, o Japão de Zaccheroni, que apesar da qualidade de Kagawa, estrela de Dortmund, e o cérebro de Endo atrás, afirma-se, até agora, como o onze mais lento do torneio.