A BELA ARTE LUSITANA

23 de Maio de 2003

O futebol latino sempre foi, entre todos, o que mais se preocupou com a abordagem estética do jogo. Na base do seu pensamento: a técnica e o passe curto. Dois pilares que cada país latino -Itália, Espanha, França e Portugal- iriam, depois, emoldurar nas suas distintas concepções sócio-futebolísticas. Nessa perspectiva, será que o futebol português tem alguma coisa de próprio, ao ponto de constituir um estilo, ou é, apenas, o decálogo latino temperado por uma ou outra linha caracterizante, como, por exemplo, o contra-ataque?

Numa análise sintética, diga-se que, durante muito tempo, o facto de como, definiu Pedroto, lhe faltar os tais 30 metros na fase ofensiva, inclinou a resposta para a segunda opinião. Era quase um fatalismo. Habilidade fina, bolinha no pé, mas uma visão curta do campo de jogo impedia traduzir esse virtuosismo em resultados. Visitando os últimos 20 anos, podemos, paulatinamente, ver nascer o novo estilo, ou melhor, as novas linhas caracterizantes -a nível futebolístico e mental- que formam o, digamos, futebol português da era moderna. É um percurso que nasce com Pedroto, que, já nos anos 70, dizia devermos ser sempre fieis ao nosso futebolzinho que, quando inteligentemente interpretado nas bruscas mudanças de jogo, em que o passe largo, aspecto do futebolzão, tem o seu lugar imprescindível, faz emergir a nossa maneira peculiar de jogar.

Neste processo de crescimento, o actual FC Porto de inspiração pedrotiana, e moldado, nas horas de maior vigor e glória, por treinadores genuinamente portugueses, da nossa escola e suas linhas caracterizantes, de Artur Jorge, Oliveira, Fernando Santos até Mourinho, o último baluarte da muita nossa forma de jogar futebol, temperado pela influência multieuropeia que os anos com Robson ou Van Gaal, mestres de outros futebóis, lhe deram, é o exemplo perfeito de que como existe, como Pedroto sonhou num tempo em que a nossa dimensão desportiva, e até social como país, era muito menor, um verdadeiro estilo de futebol português. Faltavam só preencher esses tais 30 metros, tão bem desbravados, em Sevilha, pelos muito lusos Paulo Ferreira, Maniche ou Capucho, e por outros dois outros craques, vindos de paragens que, a par das africanas, sempre influenciaram o nosso país futebolístico e não só, Derlei e Deco, dois brasileiros de expressão lusitana. As raízes profundas moram, porém, em tempos mais remotos.

O Antigo Testamento

 A BELA ARTE LUSITANANos anos 30, identificava-se, na Europa, com a escola escocesa de passe curto: Áustria, Checoslováquia, Hungria, Jugoslávia, e, claro, Escócia.

Adoptavam o sistema inglês de passe longo, os restantes países, embora havendo neles algumas equipas mais do tipo escocês. Casos, citava-se, do Sevilha, em Espanha e do FC Porto, em Portugal. Era o tempo em que o futebol latino buscava referências para fundar a sua própria escola. Os pilares, depois de analisar o barro que moldava os seus futebolistas, seriam a predilecção pelo passe curto, por ser mais belo e exigir menor condição atlética. Um futebol desenhado pelos chamados jogadores de roda baixa, esquivos e pouco dados a duras lutas pela bola. Cândido de Oliveira tinha regressado há pouco de Inglaterra e, claro, logo vira que o poder de Cliff Bastin ou Hapgood, nada tinha a ver com a frágil malícia lusa de Pinga ou Vítor Silva Para fundar essa escola, com identidade própria, teve, como condição essencial, de desenvolver a capacidade técnica quanto ao controle da bola e ao seu comando nas sucessivas triangulações por todo o campo. Um futebol de médios, chamaram-lhe os críticos, embora, noutras nações latinas, outros factores -como a atitude competitiva, a fúria, em Espanha, ou a evoluída abordagem táctica, em Itália- tivessem melhor preenchido a totalidade do relvado.

Historicamente, a Escócia, inventora do chamado dribling and passing game, o jogo do drible e do passe, ainda se gosta de rever nessas raízes. O facto de ter sempre gerado, em contraste com os ingleses, superiores valores individuais, é a maior prova dessa identidade própria. A final da Taça UEFA confirmou, porém, como a realidade se transformou. Apanhado na encruzilhada dos tempos, o futebol escocês é hoje, estilistícamente falando, a par do irlandês, o mais britânico do mundo, se pensarmos no secular kick and rush, chuta e corre, que o tornou famoso. Até os próprios ingleses, seus mentores, adquiriram um design mais apoiado. Ao mesmo tempo, o futebol latino, criou um estilo á parte.