A “beleza da organização”

08 de Julho de 2016

Como o minuto 50 do jogo com a Croácia mudou o curso de jogo de Portugal neste Europeu. 

Quando Ronaldo pairou no ar, Portugal como que planou por cima de todo o Euro e sua existência de tantos contrastes por quais passou ao longo deste tempo passado em França. Do alto daquele “arranha-céus cabeceador” como que se podia contemplar os seis jogos que ficaram para trás.

Há uma divisão clara entre eles que pode ser feita entre a fase de grupos e a fase a eliminar. Três de cada lado. Se nos primeiros, foram as duvidas na forma de jogar e na composição da equipa, o que a levava em campo a confundir posicionamentos e sistemas (como Fernando Santos admitiu, na incompreensão entre o losango e o 4x3x3), nos três seguintes foram as certezas de uma estrutura (o 4x1x3x2) e definição do meio-campo, essencialmente aquela “linha de 3” à frente do pivot (William, sobretudo).

Portugal passou a estar mais equilibrado em campo e conseguiu, na tal avaliação estética do jogo, captar o lado do “futebol bonito da organização” que travou os desequilíbrios defensivos que marcaram os três primeiros quase de “anarquia táctica”.

Após tantas hesitações na aposta, Renato Sanches “arrombou a porta da titularidade”, Adrien ganhou o direito a jogar e estabilizar o centro (onde o sub-rendimento de Moutinho não dava ao coração do onze um ritmo táctico-cardíaco equilibrado) e João Mário assumiu-se como o “fio condutor” de toda esta nova ordem. Tantas vezes se falou nas antevisões que ele ia sair da equipa, mas de todas as vezes Fernando Santos percebeu que ele era imprescindível.

A criação e solidificação deste trio (que se manteve do jogo da Polónia para Gales, e começou ao minuto 50 do jogo com a Croácia quando saiu André Gomes e entrou Renato) marcou o encontro de Fernando Santos com uma ideia de jogo e a descoberta do “trio base” que fez o núcleo duro táctico do jogo da seleção. O núcleo que lhe deu equilíbrio ao onze (até para o processo defensivo começar de outra forma) e solidificação do “jogo posicional” (mesmo sem bola, para saber controlar os espaços nos locais vitais do terreno). Nunca se cresce pela dinâmica sem cérebro, mas sim pelos posicionamentos mais pensados.

Este é um caso claro duma equipa que cresceu pelo seu lado tático em perceber o jogo e a sua organização adaptada.

Adrien-Renato-João Mário

portugalo1

O jogo com Gales foi aquele em que essa expressão de organização a partir do trio base do meio-campo estabilizado melhor se evidenciou. Claro que o jogo ganha projeção com dois golos em três minutos mas em torno de tudo isso há muito tempo para jogar, agir, reagir e controlar.

Não adianta na euforia deste momento fazer um “quadro de perfeição” do futebol de Portugal neste Euro. Uma conjugação incrível de factores, colocou-nos fora da rota de confronto com os gigantes e sucessivamente perante adversários acessíveis. É um facto. E a seleção soube (percebendo as suas limitações e descobrindo como as colmatar) aproveitar isso. Cada jogo teve uma estratégia própria, mas a identidade existiu no trio Adrien-Renato-João Mário mais, claro, os avançados vagabundos Nani-Ronaldo. Nesse ponto, é uma imagem fiel do nosso futebol que sempre viveu entre a ideia de identidade e de estratégia. A diferença foi não definir desde o inicio por qual começar. Terá de ser sempre pela primeira, mesmo que em vez de um “onze base” ela se baseia num “trio base”. Este foi encontrado em locais e por formas diferentes mas quando se reuniu deu, por fim, uma “voz táctica colectiva” á seleção.