A bola tem olhos e ouvidos

22 de Abril de 2011

A bola tem olhos e ouvidos

Os Estaduais entram na fase decisiva e o futebol brasileiro regressa em força. Esta semana segui mais o Estadual Gaúcho. Primeiro impacto: dois jogadores que mais me fizeram sonhar nos anos 80. Falcão e Renato, craques de outras eras. De expressão muito diferente. Falcão era a classe personificada com a bola. Médio patriarcal, condução altiva, técnica de arranque e passe. Brilhou na selecção, veio para a Europa, para a Roma e triunfou. Renato Gaúcho era o avançado rebelde.

Cabelo comprido com estilo de galã de praia, avançado forte, com desmarcação, mortífero a fazer golos. Pouco jogou na selecção, veio para a Europa, para a Roma e nunca se adaptou. Excepto às suas noites, claro.

Tudo isso me veio à cabeça ao revê-los agora como treinadores, nos bancos dos seus clubes do coração. Falcão, em estreia no Internacional, Renato, no Grémio. No banco, com a adaptação do tempo e cargo, o mesmo estilo de jogadores. Falcão, menos cabelo, óculos na ponta do nariz, fato e gravata. Renato, o mesmo penteado, postura descontraída, gesticulando.

Em campo, duas equipas que personificam o futebol mais europeu de todo o Brasil, no sentido táctico e musculado, sem perder técnica. É a imagem de marca do jogo do Rio Grande do Sul. Os adversários, mais fracos, Santa Cruz e Ypiranga (quartos-final do Gauchão) fecham bem a defender, mas os maiores craques estão do outro lado.

Ambos jogam em 4x4x2, com dois volantes, um mais fixo (Rochemback no Grémio, Guinazu no Inter) e outro mais solto a subir entrando no processo ofensivo (Adilson, no Gremio, excelente jogador, corta e sai a jogar, craque mesmo, e Bolatti, no Inter). Eis dois nomes conhecidos do nosso futebol, agora com mais espaço para jogarem. Nota-se sobretudo em Bolatti. Com o corredor central livre, cresce como jogador em posse.

Nas faixas, vivem falsos alas. No Grémio, Douglas, canhoto, joga na direita a puxar para dentro, não em diagonais, pois é algo lento, mas buscando espaço para meter a bola telecomandada na área e rematar (fez um golo fabuloso). À esquerda, Lúcio serve dupla de ataque com o garoto Leandro, de 17 anos, a explodir de trás, aproveitando o arrastar de marcações do experiente Borges.

A estratégia dos alas jogar com o pé favorito trocado (isto é, na faixa oposta) é uma tendência que também já conquistou o futebol brasileiro. No Inter, Andrezinho acelera pela direita, mais como um ala típico, apoiado pelas subidas do lateral Nei. Da esquerda, surge a organização criativa do argentino D ´Alessandro apoiando a dupla atacante (Sóbis muito móvel e Leandro Damião, 9 clássico que surge no espaço vazio). Ambos passaram às meias-finais. O duelo Falcão-Renato pode continuar.

Os “baixinhos” de Coritiba

A bola tem olhos e ouvidosEstá a uma vitória de conquistar o Estadual paranaense (venceu o primeiro turno, lidera agora destacado o segundo). Mais do que apenas pelos resultados, cativa, porém, pelo seu bom futebol. É o Coritiba de Marcelo Oliveira, um time dominado por baixinhos. O principal: Marco Aurélio, 1, 69, segundo-avançado rápido a serpentear desde trás e remate colocado. Não é, porém, apenas o artista driblador. Também sabe parar, olhar e passar (é o traço de organizador que tem dentro dele a emergir) servindo o ponta-lança Bill.

Na direita, abrindo espaços, explode Rafinha (1, 67m.) enquanto da esquerda, mais evoluído a calcular o timing de entrada, mas com excelente remate a finalizar a diagonal, surge Davi (1,75). Em geral quando a bola lhe surge é na sequência de um bom passe, a solicitar um remate apanhando-o embalado vindo de trás.

A estrutura é um 4x4x2 com dois volantes e laterais ofensivos, Jonas, forte, a subir na direita, e Eltinho (1,71) a subir na esquerda, combinando com Davi. No meio, mandam Marcos Paulo (ou Leandro Donizeti) e Leo Gago. Procurando sempre desenhar um futebol apoiado e rápido, fazendo a bola circular a toda a largura o gramado, vale mesmo a pena ver este Coritiba jogar.

E, no final, fica a actual mensagem que nasceu na Europa: Também no Brasil, o bom futebol começa a ser território dos baixinhos.

Kelvin, “zig-zag” do Paraná

A bola tem olhos e ouvidosÉ o garoto que o FC Porto descobriu nos gramados do Paraná. Kelvin, 17 anos, o pimentinha dos dribles. Esta semana, vendo alguns jogos de jornadas anteriores do Paraná FC, saltou logo à vista, desde o primeiro instante, um sintoma claro: talento tem e muito. Faz da bola o que quer. Ao ponto de sempre que a recebe parecer quase sempre que exagera nos malabarismos que faz. No primeiro toque pareceu canhoto, no segundo já acho que é destro. Não sei. Sei que alterna os dois pés, recepção-condução-passe com uma facilidade estonteante.

Joga como segundo avançado solto, mas caindo quase sempre sobre uma faixa, fugindo a marcações e arrancando desde ai (acabando a combinar com outro garoto terrível, Diego). A dúvida que fica é se todo esse talento será capaz de se tornar também num… bom jogador. Porque uma coisa é a habilidade técnica, outra coisa é saber… jogar bem. Kelvin tem o que a natureza e o espírito topete lhe deu. A escola do Dragão terá agora de lhe dar os livros de futebol (fundamentos de jogo) para se tornar…jogador!