A cabeça para pensar!

01 de Julho de 2012

PLANETA DO FUTEBOL (25)

Em termos de sistema dominante, o 4x3x3 e suas variantes (4x2x3x1) mandou neste Euro. É a estrutura mais racional na ocupação do terreno na relação zonas interiores-flancos. O 4x4x2 é, claramente, mais exigente no plano da aplicação dos princípios (diferentes em função de cada equipa) e posicionamento dos jogadores em campo. Este debate 4x3x3 (ou 4x2x3x1) versus 4x4x2 (ou 4x3x1x2) só emerge, porém, neste Euro por culpa de uma única equipa: a Itália de Prandelli, que também vagueou por um 3x5x2 (ou 5x3x2 a defender) ainda mais exigente, mas que chega à Final jogando dentro do mais tacticamente evoluído 4x4x2 visto nos últimos tempos ao mais alto nível.

É verdade que outras equipas também desenharam o 4x4x2. Suécia, Ucrânia e, sobretudo, Inglaterra. O 4x4x2 inglês foi, porém, muito diferente do italiano. Para além de ser uma versão mais clássica (duplo-pivot e duas linhas criadas a meio-campo com recuo estratégico de um avançado, Rooney, então quase 4x2x3x1) o modelo inglês não pressionava. Ou seja, quando perdia a bola em vez de cair em pressão sobre o adversário para a roubar, recuava o bloco para se organizar e bascular em função do local onde o adversário quer entrar, tapando espaços.

O 4x4x2 italiano é diferente. Na estrutura, começa, desde logo, por desenhar três linhas a meio-campo. Um pivot, Pirlo, dois interiores de transição (Marchisio-De Rossi) e um trequartista (Montolivo) médio adiantado nas costas da complementar dupla de avançados (Balotelli mais fixo a aguentar e rematar, Cassano mais solto, a pegar e passar). Na transição tanto sai a jogar apoiado como mete um passe longo (Pirlo ou Montolivo, este quando recua). A grande diferença está, porém, quando perde a bola, momento em que assume a transição defensiva pressionante sobre o adversário. Os jogadores estão sempre muito juntos (vêm-se uns aos outros), enchendo o meio-campo com quatro médios puros. Fecham/flectem quando perdem a bola, abrem para dar largura em posse (um dos avançados também cai numa faixa no momento ofensivo). São os princípios do melhor 4x4x2 italiano em zona pressionante. Sentem-se seguros.

Iniesta é um 10?

A cabeça para pensarEsta Itália é dos melhores case study do 4x4x2 visto na elite do futebol nos últimos anos. Cada vez mais, vendo os grandes torneios, penso que quem souber jogar com quatro médios (ou meter quatro homens no meio-campo em transição) aumenta a intensidade competitiva e a possibilidade de controlar qualquer jogo.

Dizer isto até seria pacifico se de repente não surgisse Espanha que a jogar em 4x3x3 mete no meio campo...seis jogadores! (isto, claro, na sua versão sem nº9 clássico ou extremo, quase 4x6x0). Mesmo assim, nem todos os médios são iguais. Existem, claramente, diferentes linhas em processo de construção. Nessa progressão apoiada com bola, Iniesta é o elo de ligação chave. É ele o nº10 deste onze espanhol mesmo que jogue a partir de uma faixa (a esquerda, preferencialmente). Para Xavi, o primeiro construtor, ele é mesmo o nº10 mais desequilibrante do Mundo pela facilidade com que mal recebe a bola sai da zona de pressão. Defeitos em Iniesta? Joga pouco de cabeça. Em todo o Euro só por uma vez tocou na bola de cabeça! Explicação? Simples: "Só a uso para pensar!", responde, rindo-se.