A CAIXA NEGRA DO BRASIL-ALEMANHA

30 de Julho de 2014

Pode-se tentar explicar todos os resultados através de erros individuais, falhas de marcação, etc. É impossível, porém, explicar um jogo todo recorrendo apenas a esses lances isolados. Para fazer o diagnóstico de 90 minutos é necessário abrir a “caixa negra” do jogo. Ai está a equipa e ideias que explicam verdadeiramente o que aconteceu, como no caso do despenhar da seleção brasileira em pleno mar alemão. A explicação para o sucedido torna-se então espantosamente simples: desorganização total contra organização impecável.

O Brasil foi um onze tacticamente perdido em campo, sem organização defensiva (entenda-se processo defensivo interligado dos três sectores, sobretudo meio-campo). Eis a face mais exposta ao “buraco de ar táctico” onde desde o inicio o meio-campo alemão Khedira-Kroos pressionou a dupla Luiz Gustavo-Fernadinho (enquanto o trio ofensivo pressionava os defesas brasileiros subidos descoordenadamente). Mais atrás, o “guardador da organização”, Schweinsteiger.

Comecem, portanto, por pensar o jogo antes do primeiro golo. Aqueles dez minutos que durou o 0-0. Já se denotam os traços táctico-coletivos que fizeram a seguir o maior filme de terror técnico e táctico da história do futebol brasileiro. Do lado alemão, a frieza habitual. Mesmo depois duma vitória histórica e dos golos que marcavam, festejavam da mesma forma como fosse um qualquer particular.

David Luiz é um bom jogador mas tem um defeito terrível: é um defesa que pensa como um... avançado. Por isso se sentiu tanto a falta da serenidade segura de Thiago Silva. Neymar joga, empolga e intimida. Sem estas duas peças, o onze perdeu as bases individuais que o suportavam e desintegrou-se em pleno ar (jogo).
Bernard foi uma aposta de velocidade (mal treinada como Scolari admitiu) deixando de fora cérebros como Ramirez ou Willian. Nada disto são erros individuais. São erros coletivos de quem (não) pensa a equipa, com “transfer” coletivo.

Aquela frase das “finais não se jogam, ganham-se” é a mais falsa do futebol. Como podes ganhar antes de saber jogar? Como qualquer jogo, afinal. Até uma meia-final.

O MÉDIO PERFEITO

A CAIXA NEGRA DO BRASILALEMANHALow cumpriu o guião de manter a colocação de Lahm a lateral. A equipa melhora logo porque o meio-campo passa a ter a sua tal “sala de máquinas” com as peças perfeitas (Schweinsteiger-Khedira-Kroos) em plena laboração. Muller foi, à direita, a seta com mobilidade ideal quando Marcelo saia esquecendo-se sempre das “chaves de casa”.

Mas, claro, este jogo também serviu para eternizar Klose. Nunca ninguém marcou tantos golos como ele num Mundial (embora sem as lesões eu ache que o Ronaldo fenómeno ia continuar a marcar). Serve também para eternizar um jogador que nunca será Bola de Ouro mas que personifica, para mim, o que é o protótipo de um grande médio no futebol atual: TonI Kroos. A percepção da colocação no terreno, a leitura de quando deve surgir e chegar à frente, o passe e a finalização (com o pé esquerdo e o direito), a condução de bola e a personalidade com que faz tudo percorrendo com autoridade as posições 8, 10 e 6. A ordem não é arbitrária. Táctica individual notável. O jogo coletivo decomposto através de um jogador que feito de gelo ou de aço é, no jogo, calor que provoca arrepio.