A «Casa losango»

30 de Novembro de 2007

A «Casa losango»

Penso, por vezes, o que será o Paulo Bento treinador daqui a dez anos. Quando se começa a vida nos bancos logo no comando de um grande, a noção de progressão na carreira fica desde logo muito turva. É quase um paradoxo dizer-se que precisa crescer como treinador quando, no plano nacional, já está no topo. Há dez anos, era Carlos Manuel quem treinava o Sporting. Hoje, está no Atlético e, desde há muito, fora do circuito da I Divisão. Não penso que vá ser esse o destino de Bento, mas a sua carreira como técnico do Sporting caiu num “beco sem saída” táctico.

Geometricamente, o losango é um bom habitat para um meio-campo. Toca em largura os seus vários pontos e dá vida a cada espaço de relva. Paulo Bento viu nele a “casa táctica” ideal para construir o seu Sporting. Nos últimos jogos, porém, a equipa sentiu necessidade de outros abrigos tácticos. Ensaiou vários (desde o plano de emergência dos três defesas ao 4x2x3x1) mas em todos sentiu-se num território estranho. E estava, de facto. Por isso, quando, antes ou a meio do jogo, Bento ordena-a de voltar ao losango, ela quase como se sente de volta à sua “casa táctica”. Contra o Leixões, tentou o 4x2x3x1, mas desistiu aos 27 minutos. Não surpreendeu. Por uma razão simples: transformou o sistema alternativo em principal, e a equipa ressentiu-se da falta de rotinas.

A «Casa losango»O Sporting precisa de um sistema alternativo, mas não para substituir o preferencial. Precisa dele apenas para solução táctica a lançar face à evolução dos jogos. O pior que Bento pode fazer neste momento é desistir do seu sistema preferencial. O 4x4x2 em losango. O Sporting deve continuar a jogar na estrutura onde o faz melhor. Ao mesmo tempo, deve ir treinando o alternativo. Não é fácil treinar dois sistemas ao mesmo tempo, pelo que um deve sempre impor-se ao outro. Se Bento ceder em tentar tornar o alternativo (4x2x3x1) em preferencial (substituindo o 4x4x2) estará a deitar fora dois anos de trabalho. Só voltando ao principio, isto é, à pré-época, redesenhando o plantel, é que podia dar construir outra “casa táctica”. Agora, resta-lhe lutar pelas suas ideias. Ganhar ou perder com elas.

Os laterais são decisivos para dar vida a este sistema. Por isso, a grande influência que Abel tem hoje no jogo leonino. A mobilidade dos médios, também. Para essas quatro posições, tem cinco com saber táctico (Veloso-Vukcevic-Izmailov-Moutinho-Romagnoli). Poucos, para um sistema física e tacticamente tão exigente. Quando mexe nas peças, a máquina ressente-se de imediato. Mas, vendo bem, os losangos têm muitas saídas que vão dar até ao bom futebol. Basta os jogadores serem capazes de as descobrir. Em Alvalade, a melhor solução para Bento é perceber que o significado da palavra alternativo é muito claro.