A “casca de noz” táctica

15 de Junho de 2012

Não existe plano de jogo ou estado emocional da equipa e jogadores que não seja revelado na forma como entram em campo. As primeiras jogadas são, assim, o retrato mais fiel do momento táctico-emocional de uma equipa. O jogo, depois, pode ir por outros caminhos mas o onze continua com o mesmo mapa na mão.

A colocação, mais subida, e a intensidade de pressão, mais alta, de Moutinho e Meireles, os dois médios interiores do triângulo do meio-campo português, nesses primeiros instantes, revelaram a diferente atitude como Portugal entrou em campo. Com a convicção da pressão alta como base para pressionar bem quando se quer assumir a iniciativa do jogo, mudou o chip da Alemanha para a Dinamarca mas todo o seu jogo continua dependente do pulmão do meio-campo. Já não vive da imaginação, vive da rotação. Quando esta cai, a equipa cai agarrada a esses dois jogadores.

Ver os craques de regresso à seleção, confere a possibilidade de ver como reagem em equipas e contextos diferentes. Os níveis de ansiedade de Cristiano Ronaldo disparam para índices que o impedem de auto-controlar o seu melhor futebol. Pepe explica que o seu jogo perna-longa tem sempre a palavra certa em termos de timing de entrada à bola. Em suma: cada coisa no seu lugar.

A Dinamarca é uma equipa lenta nas transições defesa-ataque mas tem um ponta-de-lança, Bendtner, exímio a falar com os pássaros no jogo aéreo. Cai sempre no chamado lado cego dos defesas, nas suas costas. Não consegue é fazer campo pequeno a defender, isto é, recuar encurtando espaços ao adversário. Foi isso que salvou Portugal nos últimos dez minutos, quando, paradoxalmente, encontrou mais espaços para atacar do que no resto do jogo todo. Nessa altura, o campo até parece que aumentou.

No espaço, como no tempo, até na forma como o pontapé na atmosfera de Varela (com o pé esquerdo) se transformou no gesto técnico perfeito para ajeitar a bola para o pé direito.
Voltemos às sensações do inicio do jogo. Esta seleção não tem possibilidade de ter outro GPS táctico ou de estilo em campo. Em vez de imaginação, gerir a rotação. É o novo rosto do futebol português.

Os jogadores crescem

Cada jogador transmite sensações diferentes e dá coisas distintas ao jogo. Nessa babilónia, a Rep.Checa é dos onzes mais multidimensionais. Jiracek é, na origem, um médio-centro operário que ganha bola e metros com ela. Tem, no entanto, dentro dele o atrevimento para fazer mais coisas. Por isso, tem surgido agora mais adiantado, na meia-direita e, contra Grécia, alertou-nos para outras dimensões do seu futebol. Num passe e num golo, já percebemos que lhe podemos exigir que seja mais coisas no jogo, quase um médio de ruptura.

Noutra dimensão, o lateral-direito Selassie, talvez pelas suas origens etíopes, dá a sensação de cada vez que sobe no terreno que está a fazer uma prova de corta-mato. A sua morfologia é a mesma desses fundistas da Etiópia. O seu futebol começa por ser típico de apenas mais um lateral ofensivo, mas quando chega perto da área contrária, também mostra que pode ser mais do que isso, pois define quase sempre bem.

Ou seja, ambos começam dando ideias banais, mas, no fim, passam, em cada jogada, da imagem combativa para as soluções eficazes que nos alertam para o verdadeiro valor que têm.