A “caverna” do Irão

15 de Junho de 2014

A "caverna" do Irão

Existem vitórias que quase ultrapassam a existência de uma equipa. O Irão de Queiroz chega ao Mundial após ganhar na Coreia numa espécie de filme táctico dramático.

É difícil eleger uma estrela no atual futebol iraniano O melhor jogador iraniano da atualidade será, talvez, Dejagah, mescla de ala médio-avançado crescido no futebol alemão (e está agora no Fulham) e que representou a Alemanha até aos Sub-21. É rápido e executa em velocidade, mas está longe da classe (e influência no jogo do onze) de mitos dos passado como o maestro Karimi ou, claro, o goleador Ali Daaei. Sem estrelas, a atual seleção iraniana vale sobretudo pela sua capacidade de funcionar como bloco em campo, muito compacto na ligação de cobertura defensiva entre meio-campo e defesa, sem nunca perder nunca a ligação entrelinhas. Foi o que se viu na Coreia.

Com Dejagah lesionado, o ataque fica entregue ao dinâmico Reza Ghoochanejad que no clube (emprestado pelo Standard Liege ao St.Truden) joga mais como segundo avançado. Na seleção tornou-se num nº9 solto e rápido (dá muito profundidade em desmarcação nos espaços vazios). Foi assim que fez o golo da vitória num contra-ataque após cheirar o erro de um defesa coreano.

Num 4x3x3 que se traduz num 4x5x1 compacto, o triângulo do meio-campo chefiado (jogo e espírito) pelo patrão Neukonam, 32 anos (Teymourian-Jabbari, ambos com 30, são os interiores) é a chave do sistema, num bloco-baixo que recua a equipa quase para uma espécie de caverna defensiva junto à sua área. Raramente perdem as posições de cobertura. Uma rotina de jogo que é consequência desta seleção ter como base o onze do Esteghal, atual campeão iraniano, que dá seis jogadores titulares à equipa inicial: Neukonam, os médios Jabbari e Haydari, que fecha na direita, e três membros do quarteto defensivo, Montazeri e Beigzadeh, laterais, e Hosseini, central. Conhecendo-se muito bem, estão sempre bem colocados.

Este é atualmente outro futebol iraniano. Sem craques, mas com alma e um símbolo em campo: Neukonam. Após seis épocas em Espanha (Osasuna) regressou para, chefiar, com ou sem bola, a construção da muralha táctica do Irão.

Austrália: com ou sem Nº9?

Em termos de estilo, Austrália é uma equipa que, nos últimos anos, perdeu a inspiração original mais britânica (com passes longos) para tentar jogar de forma mais apoiada. Falta-lhe, porém, rotinas nesse modelo de jogo. Partindo de um 4x3x3 com duplo-pivot (Milligan-Bresciano) atrás de um médio-centro ofensivo (Holman) é difícil de entender a insistência do técnico alemão Osieck em jogar sem ponta-de-lança clássico, preferindo colocar um falso nº9 nesse espaço, Cahill.

São cada vez mais existem equipas a querer adaptar essa dinâmica posicional mentirosa para o seu avançado-centro. É, porém, de uma dinâmica muito difícil de importar. Exige um jogador muito inteligente nos recuos-avanços nessa posição, segurar e dar profundidade ao mesmo tempo. Cahill não é esse tipo de jogador. Nessa posição funciona exatamente ao contrário. Retira profundidade á equipa que quando quer concluir as jogadas, sente a falta de uma referencia na área. Isto notou-se no jogo decisivo contra o Iraque enquanto se mantinha o 0-0.

Tudo mudou quando Osieck trocou Cahill pelo gigante Kennedy (do Nagoya Grampus), um nº9 fixo que logo na primeira jogada cabeceou nas alturas um centro e fez o golo da vitória. Para além disso, Cahill é um excelente médio, com grande visão de jogo, pelo que seria muito mais importante para o onze jogando no meio-campo. Os socceroos estão, novamente, no Mundial.

Veremos agora como evolui o modelo de jogo australiano que tem boas ideias a partir das faixas, com Oar, na esquerda, e Kruse, em diagonais, à direita. Com um nº9 na área que lhes sirva de referencia para movimentos e, sobretudo, passes/cruzamentos, os horizontes de jogo ofensivo da equipa aumentam de imediato.

Coreia ‘versão 2014’

Em termos de nível competitivo, a Coreia do Sul é a seleção asiática mais consistente da ultima década. Os talentos oscilam, mas solidificou um estilo e criou uma cultura de seleção empolgante no país.

Em 4x4x2, não mete a dupla atacante de perfil, mas sim em apoios, com o possante Kim Shi-Wook um pouco atrás de um avançado mais móvel (Lee Dong ou Lee Keunho) que faz constantes trocas posicionais com o falso ala esquerdo Song Heung (Leverkusen) enquanto Ji Dongwon fica mais aberto na direita. Também faz, no entanto, muitas diagonais, permitindo que o lateral-direito Kim Changsoo suba muito. Por principio, aposta na mobilidade permanente destes quatro homens da frente, ficando só com dois médios puros: Lee Myungioo e Jang Hyunsoo. Jogam muitos recuados mas equilibram a equipa (com e sem bola).

Um aspecto porém tem confundido o estilo coreano (essencialmente vertical e veloz, esticando rapidamente o jogo). É a presença de um ponta-de-lança de quase dois metros: Kim Shin-Wook.

Não é normal surgir um jogador tão alto no futebol coreano. Isso transforma a sua forma de jogar. Começam a surgir mais bolas por alto, resultado da tentação de meter a bola no tal gigante nº9. Pode, em muitos lances, ganhar bolas difíceis e criar oportunidades, mas isso não melhora o jogo coletivo coreano. Pelo contrário, está a condicioná-lo. Pelo menos, na sua forma de concluir as suas jogadas de ataque. O jogo com o Irão, de ataque continuado, foi esse exemplo de como as características (físicas) de um jogador podem condicionar toda uma equipa.

Os penaltys de Balotelli

É uma das frases mais falsas do futebol. Falar na lotaria os penaltys. Pela simples razão que o penalty (marcar ou defender) não é uma lotaria. É gesto técnico, colocar bem a bola, frieza mental, saber ler o remate, voar no momento certo. Tudo isto está presente no marcador e guarda-redes naquele momento.

Quem contorna todo este drama de uma forma quase sobrenatural é Balotelli. Nesses momentos parece que entra noutra dimensão, imune ao mundo que o rodeia. Podem os adversários ter passado longos minutos a reclamar, pode ser no último minuto, ser decisivo ou só para fazer 3-0. Nada mais existe então para ele. Nunca falhou um penalty na carreira desde que se estreou na primeira equipa do Inter. Já leva 24 consecutivos a marcar. Os números são estes: Inter, 6/7; Manchester City, 9/9; Milan 6/6; Seleção Itália 3/3.

Esta semana, frente ao Japão, nova demonstração de técnica fria e com classe, marcando um penalty como gosta: partie quase a passo para a bola, paradinha/simulação quase imperceptível, espera o movimento para onde o guarda-redes vai cair e, bang!, um remate-passe bem colocado para o lado aberto da baliza. Lotaria? Não, classe pura, quase insolente, de Balotelli. O louco mais inteligente a marcar penaltys.