A criação de “dinâmicas”

11 de Maio de 2016

Não sei se o Tondela se vai conseguir mesmo salvar da descida de divisão. A sua saga desde as profundezas da tabela com a lanterna vermelha em punho (depois de decretada, “mea culpa”, jornalisticamente a sua descida) é inspiradora para equipas futuras na mesma situação “irremediável”. Como já aconteceu uma vez, em 96/97, com um milagroso Rio Ave de Carlos Brito. Como é possível esta inversão?

No caso atual do Tondela chegou a estar a onze pontos da linha da água já na segunda volta. Petit é o seu terceiro treinador e de inicio quando foi contratado muito pela imagem que deixara no “jogar à Boavista” da época passada (equipa combativa que se fechava bem e saia só mesmo quando era totalmente seguro) não conseguiu pegar logo bem na equipa. Os “transplantes táctico-emocionais” no futebol não são assim imediatos.
A equipa começou a recuperar quando ganhou um jogo que ninguém previa. No Dragão, ao FC Porto. Em termos tácticos pouco alterou mas mudou totalmente a dinâmica mental. Na criação dessa nova “dinâmica de vitória” os jogadores passaram a ter outra visão emocional de cada jogada. Sobretudo na defesa onde o onze falhava muito e no meio-campo, onde Lucas Souza renasceu (tal como Luiz Alberto junto do “corre-caminhos” Hélder Tavares).

Um processo mental totalmente oposto ao do V. Setúbal. Viu-se nos jogo entre eles, como Quim Machado entrou a pensar na importância de não perder e como um ponto contra um concorrente direto (que perdia assim a hipótese de se aproximar) seria decisivo. E seria, de facto. Mas o medo tinha entrado dentro do corpo da equipa. E nunca mais saiu. Essa “dinâmica inversa” junto com as adulterações tácticas de identidade contaminaram-lhe o seu jogo depois de na primeira volta ter chegado a dizer que era das equipas que mais me apetecia ver jogar.
Para além das saídas de Suk e Ruben Semedo, o onze sofreu outros abalos. Mudou de sistema mas não vejo que tenha melhor 6 do que Fábio Pacheco, é difícil entender que André Claro e André Horta não joguem sempre, tal como a saída de Costinha até ao enigma Meyong ou Hasssan (Arnold é mais um extremo do que 9).
Mesmo assim, se não tivesse caído no abismo do receio, disputaria cada jogada com outro catalisador mental. Não podia, porém, ter mexido na rotinas criativas e agora não consegue sequer pegar nas bases (tácticas e mentais) que a fez jogar melhor.

Onde vai parar a realidade?

uniao
O U. Madeira é, das equipas que lutam por não descer, a que viveu sempre mais realisticamente o campeonato. Nem sentiu estar tudo perdido como o Tondela, nem teve sonhos europeus como o melhor V. Setúbal. Ambos estes sentimentos, confirmar-se-ia, eram totalmente desproporcionados ao real valor das equipas.
O onze de Norton, tirando as mudanças de guarda-redes (cinco e a que terá mais custado foi a da lesão de André Moreira) e do ponta-de-lança, manteve sempre um onze base. Numa equipa mais treinada para ter bola, em ataque mais posicional do em saídas a “esticar”, Breitner pode dar mais como 10, mas em condições tácticas normais de controlo atrás da linha da bola, foi a dupla Gian-Shehu (com Soares a 6) que tornou a equipa mais competitiva.

Quando André Moreira saiu foi depois da equipa ter ganho ao Sporting e empatado com o Benfica. Resultados (e quatro pontos) inesperados que devia ter sido mais capitalizados para conquistar a tranquilidade (entenda-se zona de conforto pontual para a linha de água). Não o ter conseguido depois em dois ou três jogos em casa será hoje a maior frustração de Norton de Matos.
A equipa que jogou no Bessa estava desfalcada mas revelou boa organização no processo defensivo. A questão contra o Rio Ave coloca-se em conseguir sair dele para atacar e ter de ganhar. Nessa altura, mais do que o colectivo (que nunca deve perder as tais referências atrás da linha da bola) tem de acreditar mais nas individualidades (Amilton ou Danilo, claro).