A crise do “futebol-arte”

16 de Novembro de 2012

Foi o Brasilerão menos criativo com a bola nos pés dos últimos anos. O Fluminense, acusado de pragmático, vivendo dos golos de Fred, bateu o At. Mineiro das bolas paradas e Ronaldinho, patriarca da técnica com barriguita.

As dúvidas que se criam se determinado jogador, brilhante no Brasil, pode render na Europa, resulta exatamente do fosso conceptual de jogo/estilo que existe entre esses dois mundos. Ganso é o caso mais evidente. O Brasil tanto se quis aproximar taticamente da Europa que acabou se afastando perigosamente das suas raízes criativas.

O atual Brasileirão é, por isso, um espelho perfeito do momento perturbante em que vive o futebol brasileiro a dois anos de receber o Mundial 2014. Num jogo estruturalmente lento e com mais segundas bolas que fintas a meio-campo, Ronaldinho, marcado com muito respeito, encontrou ainda espaço para brilhar quando recebe a bola. Uma crise existencial que resulta de uma crise ideológica. Treinadores como Abel Braga, Muricy, Cuca ou Tite (Luxemburgo vive num mundo à parte), têm os seus méritos competitivos no contexto brasileiro, mas emergem sobretudo pela motivação num contexto tático em que os desafios estratégicos que os adversários lhes colocam são muito limitados.

Neste ponto do debate, pode então perguntar-se: seria importante a entrada de treinadores europeus no futebol brasileiro? Depende da sua concepção de jogo. Se for para meter mais lenha tática no sentido operário do termo, reforçando as mesmas ideias e estilo do meio-campo, o futebol brasileiro já o criou por si próprio. Se for para fazer crescer metodologias de treino e aumentar/resgatar a criatividade do meio-campo, dando-lhe, ao mesmo tempo, o rigor tático/estratégico indispensável do futebol moderno, então sim, sem dúvida.

Se me perguntarem por um bom exemplo de jogador moderno brasileiro com molde europeu, digo, sem hesitar, Óscar. Cresce fisicamente em Inglaterra e conserva o seu nível técnico (criativo e com visão de jogo).

O Flu, campeão 2012, até tem taticamente uma estrutura europeia. Alternou, no decorrer do campeonato, entre o 4x4x2 e o 4x2x3x1 que acaba por ser o sistema de referencia adoptado. Um ponta-de-lança velho caça-golos, Fred, um garoto canhoto rápido metido numa faixa, Wellington Nem, e o apoio de meias burgueses que sabem tudo na hora do passe, Deco e Thiago Neves. Com as lesões de Deco, Rafael Sóbis ganhou lugar no onze e muitas vezes a estrutura passou a 4x3x3, mas sempre com dois pivôs (Edinho, mais fixo, e Jean, talvez , junto com Paulinho do Corinthians, o volante mais completo deste Brasileirão) e laterais ofensivos (sobretudo Carlinhos, na esquerda).

Sempre que surge mais imaginação (finta ou troca de bola criativa) o jogo baixa claramente de ritmo. É o sintoma mais evidente de como a melhor rotação da técnica brasileira perdeu a sintonia com o ritmo dos ponteiros do relógio do futebol internacional moderno.

O ‘deserto Neymar’

A crise do futebol-arteSe hoje perguntarmos por jogadores brasileiros para colocar entre os 20 melhores do mundo, temos muita dificuldade em responder. Dizemos Neymar e depois ficamos a pensar.

E os que nos lembramos são defesas ou médios combativos. Isto há alguns anos era impensável. Vendo a lista de melhores jogadores do Brasileirão 2012 essa conclusão é ainda mais perturbante. Lucas Moura (perto de rumar ao PSG) não descolou e, assim, entre eles, estão os ecos do passado (de Ronaldinho a Juninho Pernambucano) e os volantes-chefes do futebol atual (de Paulinho a Zé Roberto), cruzados com essa esperança solitária. Neymar. Vê-lo jogar no Santos é, no entanto, como ver a última coca-cola no deserto.

Para ser o grande craque da seleção (capaz de desequilibrar jogos) no Mundial 2014 uma coisa parece-me indispensável: Neymar tem de fazer a última época antes do torneio no futebol europeu. Encaixá-lo no Barcelona até parece relativamente fácil. Pode jogar, solto, a partir da posição de um ala. Encaixá-lo com Messi parece mais difícil. O grande desafio é crescer taticamente (e fisicamente) dentro de um enquadramento técnico colectivo.