A crise dos «monstros»

10 de Fevereiro de 2010

O futebol argentino é, por definição, um ser excessivo e selvagem. Tudo é sobredimensionado. Por isso, tanto emite sinais fantásticos como outros alarmantes, num abrir e fechar de olhos. Os actuais, preocupam os apaixonados pela arte gaúcha com bola. A selecção de Maradona já leva 102 jogadores convocados em 18 meses, mas um simples olhar por alguns jogos da Liga argentina, mostram que o bom futebol desapareceu dos seus relvados há já algum tempo. Apenas alguns relâmpagos. As primeiras três jornadas do Torneio Clausura confirmam este triunfo dos fantasmas. O auge desta crise artística está nos monstros River e Boca, dois onzes, duas sombras errantes em campo.

Vendo o jogo no Monumental de Buenos Aires, entre River e o Rosário Central, busco um novo pibe para levantar emoções. E ele está lá, de facto. Um mosquito (1,52m e 58kg.) em forma de jogador de futebol. É El Keko Villaba, de 17 anos, finta e dribla por todo o ataque. Não é um grande craque, mas junto a Funes Mori, de 18, faz uma interessante dupla de ataque. O resto da equipa é uma babilónia de estilos. Sem identidade.

Cruza os pibes atacantes com veteranos que, em campo, parecem buscar portas secretas para outras vidas. São os casos do burrito Ortega, com 35 anos, nessa tarde na bancada após noites mal dormidas, e Almeyda, que três anos depois de dizer que acabara a carreira, decidiu voltar. O onze alterna entre o 4x4x2 e o 3x4x1x2. Na Argentina, ao duplo pivot chama-se doble 5, o numero que, na história, celebrizou os seus grandes caudillos.

A crise dos «monstros»É onde joga Almeyda. Está longe, porém, de dar à equipa essa personalidade. Quando joga acompanhado, com Barrado ou Ahumada, o onze fica melhor, mas o jogador que lhe dá, claramente, maior qualidade é o médio ofensivo paraguaio Rojas, de 21 anos, que tem criatividade e organiza bem o jogo. No banco, outro veterano, El Muneco Gallardo, com 34 anos.

O Boca tem o seu maior problema na defesa (Ibarra-Paletta-Munoz-Morel Rodriguez). No jogo contra o Newell`s já perdia 0-3 aos 15 minutos! E podiam ser mais. Joga num 4x2x3x1 sem dinâmica defesa-ataque desde trás. O tal doble 5 é muito pouco rotativo. Medel é melhor a defender e o regressado Prediguer, apático, saiu ao intervalo. O onze não tem equilíbrio entre linhas, mas a atacar é perigoso, com o veterano Palermo servido por Riquelme e um segundo avançado muito rápido, o pibe Gaitan.

É estranho, porém, olhar para a classificação e ver que ambos, River e
Boca, vivem hoje longe do topo da classificação, incapazes de sonhar com o título. É o tempo dos pequenos heróis nas canchas argentinas. Depois do título inédito no Banfield, o Tanque Silva rumou ao Velez, já marcou e já está de novo em primeiro...