A cultura (da) táctica

26 de Junho de 2012

PLANETA DO EUROPEU (20)

Por vocação histórica, são raras as vezes que os italianos alteraram a sua rotina táctica, subconsciente do cattenacio, frasco de veneno do contra-ataque atado á cintura. O futebol vive, porém, tempos estilisticamente confusos. A Inglaterra não pressiona em nenhum momento do jogo. Perde a posse, recua e organiza-se toda atrás da linha da bola para fechar espaços em largura. Como sair desta encruzilhada?

Quando se vê jogar a Itália é inevitável afastar a sensação que os jogadores estão tacticamente condicionados. Que jogam com amarras nos pés. Não é bem assim, acho antes que estão tacticamente...moldados. E, na maioria dos casos, tal traduz a cultura táctica de sentido posicional mais evoluída do futebol mundial. Mesmo quando, como contra a Inglaterra, a equipa estava fisicamente nos arames. Ver, nessa altura, Pirlo, mesmo já quase a passo, manter o estilo elegante em campo, ritmo e passe na condução de bola, recebendo-a sempre no sito certo, vê-se toda a dimensão do que é um catedrático táctico.

É difícil o futebol inglês a viver muito tempo enjaulado neste estilo defensivo, sem assumir querer meter rapidamente a bola para cima da área adversária. Nos últimos anos, foi positivo o upgrade de técnica dos seus jogadores (médios sobretudo). Ao mesmo tempo, o upgrade táctico acabou por confundir as suas mentes. Entre o defensivismo de inspiração continental e o velho kick and rush, existe um ponto intermédio. Na atual Inglaterra, Parker e Gerrard jogam presos por uma corda à defesa, os alas só recebem a bola quando já não existe forma de a esconder e Ronney submerge arte com luta. No fim, a Velha Albion já nem se reconhece ao espelho. Não é uma questão de ter voltado a perder. É uma questão de que não faz sentido, para a saúde mental do futebol inglês, perder desta forma.

Em suma: não é obrigatório esquecer o clássico para se ser moderno.

Perturbados pela cultura táctica, olhamos por vezes o jogo de forma tão profunda que esquecemos as suas coisas mais simples. Com Pirlo em campo, porém, esse perigo não existe. O trafico de táctica em Itália tem um estilo intemporal.

Balotelli “táctico”

A cultura da tácticaUm craque mecanizado torna-se um jogador vulgar. Não exageremos e pensemos em casos concretos. Quando se analisa Balotelli, fala-se logo do seu lado lunático, mas, no plano táctico-colectivo, as suas características no jogo emergem muito para além disso e é indispensável à estratégia de Prandeli, sobretudo frente a equipas mais físicas que baixam o bloco a defender, como foi a Inglaterra dos confusos tempos modernos.
Enquanto Di Natale é avançado de desmarcações em espaços nas costas dos defesas e Cassano joga com bola, as características de Balottelli são mais de choque, forte a receber e segurar a bola de costas em contacto físico com o mais duro defesa.

Um traço indispensável (no timing de jogo que se traduz em campo) para permitir que os médios surjam desde trás ou o segundo avançado saiba o melhor espaço para se colocar em torno dele.

Ver o jogador mais louco deste Euro por este prisma físico-táctico pode causar alucinações mas num jogo com tanto talento em confronto por metro quadrado, é o único que nunca permite um jogador em campo cair na vulgaridade. Nem a um génio louco.