A DEFESA EM «LINHA» E A TÁCTICA DO “FORA DE JOGO”

02 de Dezembro de 2006

Vasculhando a história do futebol, há um momento chave que marca o nascer dessa armadilha do fora-de-jogo. O seu mentor foi um treinador francês, em 1963, chamado Pierre Sinibaldi, então no Anderlecht que, nessa época, utilizando essa cínica arma defensiva, levou á vitória sobre o grande Real Madrid de Di Stefano, na primeira eliminatória da Taça dos Campeões. A base da estratégia passava por encarar o ataque espanhol de Zocco-Puskas-Di Stefano, com uma defesa a «4», Heylens-Varbiest-Lippens-Cornelis, colocada em linha e marcando á zona num sistema táctico de 4x2x4. A essência da armadilha, residia no avançar de um desses defesas para fazer a zona e encurtar espaços em relação ao portador da bola na hora em que este se aproximava da área belga. O ponto de referência era, assim, sempre a posição da bola. No momento em que o madrileno ensaiava o passe, o trio recuado dava mais um-dois passos á frente, colocava-se de perfil com o libero que saíra na marcação e, nesse movimento, deixava os avançados madrilenos fora-de-jogo.

Era o nascer da chamada defesa em linha que, mais tarde, seria lapidada pelos grandes clubes belgas e, sobretudo, a sua selecção que, nos anos 80, com Guy This se tornou então de uma precisão cirúrgica na realização dessa arte de enganar, a forma mais sublime de defender sem bola. Seus autores: Gerets, Millecamps, Meeuws, Renquin. Revendo os jogos dessa Bélgica, nota-se, porém, que a defesa em linha já evoluíra nos seus contornos, ao ponto de ela servir de referência para o que se pratica na maioria das grandes equipas do presente, desde, por exemplo, o Milan de fins dos anos 80, quando, então em 4x4x2, adiantava a defesa, Tassotti-Costacurta-Baresi-Maldini, fazendo a zona, mas já com o líbero colocado desde o inicio de perfil com o quarteto defensivo que avançava á sua voz de comando.

A DEFESA EM «LINHA» E A TÁCTICA DO FORA DE JOGOHoje, em relação ao passado, nota-se que cresceu o papel do guarda-redes, agora mais adiantado, quase como um segundo libero que sai com os pés a despejar as bolas longas que caiam no espaço vazio entre ele e as costas do quarteto defensivo, que continua a posicionar-se á zona, movendo-se sempre em função da posição da bola.

Uma imagem do célebre jogo Anderlecht-Real Madrid (1ª eliminatória, Taça dos Campeões, 62/63), onde o treinador francês do campeão belga, Pierre Sinibaldi, lançou a defesa em linha. Nesta imagem, pode-se ver como se colocava a defesa do Anderlecht numa fase do jogo quando Amancio (nº7) se prepara para fazer um passe entre dois médios belgas. O mais interessante é verificar a posição do quarteto defensivo do Anderlecht. Á direita, Cornelis marca á zona Zocco. Di Stefano, entre os dois centrais, vai, em breve, ser colocado fora-de-jogo, por Lippens, já adiantado (á esquerda), e Verbiest (á direita de Di Stefano), que vai avançar, dando dois passos em frente. Na esquerda, Heylens, já fizera a zona que provocara o recuo de Amancio.

Tácticas: Defesa em “linha” e “pressing” alto

No presente, porém, alguns ecos do sistema de Sinibaldi dos anos 60 ainda se podem detectar, em tese, na forma como muitas grandes equipas da actualidade praticam a chamada defesa alta, antes só feita por um defesa que se destacava do quarteto recuado á zona, mas agora executada por todo o sector, fundindo-se depois, a meio campo, com o tal pressing alto, encurtando espaços, reduzindo tempo para o portador da bola pensar. É a zona pressionante. Todos estes conceitos têm no seu subconsciente a intenção de colocar os adversários fora-de-jogo. O movimento base da estratégia reside em que cada vez que o adversário faça um passe para trás ou vire o jogo, a nossa defesa terá sempre a tendência de avançar pelo menos um metro no terreno, aproximando as linhas. Desta forma, quando o passe for executado, é muito provável que o adversário, com as suas linhas, na interpretação inversa do sistema, mais separadas, fique com os avançados em posição de fora-de-jogo. Este novos conceitos de dinâmica defensiva lançam, noutra perspectiva, outro debate do futebol moderno sobre quem são os novos patrões da equipa. Face ao exposto, o epicentro cerebral recuou no terreno, deixou o centro do relvado e passou para a zona dos trincos.

A DEFESA EM «LINHA» E A TÁCTICA DO FORA DE JOGOSão eles, ou os volantes que utilizam esse espaço como ponto de partida do seu jogo, a nova autoridade máxima em campo, como, por exemplo, tão bem explicaram no Euro-2004, jogadores como Zagorakis, Lampard ou Manniche. A sua importância emerge, desde logo, na forma como controlam o ritmo de jogo, entenda-se velocidade, quando a equipa recupera a posse da bola. Se reunir no mesmo onze, centrais e trincos que saibam ter a bola nos pés e fazer o primeiro passe na saída para o ataque com precisão, a prioritária manobra burocrática de qualquer circuito preferencial de jogo está garantida. Sem bola, é crucial a sua capacidade para gerir os espaços, o segredo táctico-posicional que depois determina o sucesso ou não da defesa em linha na altura de subir para fazer o fora-de-jogo
Zagorakis, a alta autoridade que gere o "pressing alto" grego