A descoberta sul-americana

03 de Agosto de 2009

A descoberta sul-americana

“A estender olhos, não podíamos ver senão terra e arvoredos, terra que nos parecia muito extensa. (…) Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo!”

Pero Vaz de Caminha, 1500 (o Brasil antes do futebol)

Tinha o semblante índio das profundezas latino-americanas. Nas botas, a picardia e o faro do golo. Yazalde marcou uma época em Alvalade. Eram os anos 70. Vindo dos “gramados” ou “canchas” do Novo Mundo, o jogador sul-americano tinha outro encanto, samba ou tango, nos relvados do Velho Continente. Pouco depois, também o FC Porto, então longe dos títulos, seguia o mesmo “canto de sereia”. Cubillas, o peruano-bomba, chegava para enfeitiçar as Antas. Desde sempre, o poder sedutor, mais técnico e açucarado, do futebolista sul-americano, seduziu os olhos lusitanos, mais rígida nos seus conceitos, vida e futebol. Perdem-se no tempo, os nomes. Tellechea, Di Pace, Scopeli, Perrichon, Jaburu, Seminário… tantos.

Feudo de grandes jogadores ultramarinos, o Benfica resistiu longos anos a abrir fronteiras ao jogador estrangeiro, até que uma assembleia quente de 78 quebrou essa lei nacional e chegou o primeiro jogador além-fronteiras. Sul-americano, claro. O brasileiro Jorge Gomes que já estava em Portugal, no Boavista, um avançado mais em força do que em jeito. A partir dessa data, nunca mais parou de olhar essas outras terras, cuícas e tamborins. Até que, mais de três décadas depois (de 1978 a 2009) o onze encarnado, pela primeira vez na sua história, entrou em campo (frente ao Sunderland) com um onze só formado por jogadores estrangeiros. Um europeu e…dez sul-americanos! É uma atracção natural. Com qualidade, no geral, elevada, e, financeiramente com grande vantagem em comparação com o europeu a nível do jogador médio e até, bem negociados, dos melhores craques.

Depois de Lucho e Lisandro, o FC Porto segue a mesma pista com Beluschi, Valeri, Prediguer, argentinos da mesma casta, Falcão, colombiano e Pereira, uruguaio. Na casa do leão, Matias Fernadez, um chileno com fintas, e Caicedo, novo caça-golos. Na Luz, para juntar ao perna-longa paraguaio Cardozo o coelho argentino Saviola, o corre-caminhos brasileiro Ramires, e, ente outros, a última pérola: Keirisson, garoto-craque goleador. É um avançado com facilidade de remate, pouco dado a fintas, quase “europeu” no estilo.

Analisar Keirisson é uma boa forma de perceber que o conceito de jogador brasileiro está longe de ser global. Ou seja, existem diferentes tipos de jogadores brasileiros. Na forma de jogar e no perfil físico. Diferenças que condicionam a sua adaptação ao futebol europeu. Keirisson vem da região mais musculada do futebol brasileiro, o sul. Não existe contacto entre o futebol gaúcho (Estados do Sul) com, por exemplo, o carioca, do Rio, habitat de artistas mas fisicamente mais leves e relaxados tacticamente. Habituado ao frio, o jogador gaúcho desenvolve, desde a formação, uma musculatura única no mundo brasileiro. Ao mesmo tempo, tem a técnica inata. Ambos os factores, criam um jogador mais à imagem do futebol europeu, ritmo e espaço. Pensem, por exemplo, em Anderson ou Ronaldinho, gaúchos musculado, em contraste com cariocas ao estilo fantasista de Roger ou Zico.

A descoberta sul-americanaÉ uma análise fundamental na hora de decidir uma contratação. Porque na Europa os espaços são mais curtos e os ritmos mais velozes. Como dizia Di Stefano, se na América do Sul a bola anda à velocidade de um porco, na Europa anda à velocidade de um coelho. É preciso entender essa passagem, sem perder o ADN tecnicista, mas aprendendo a maior da cultura táctica europeia. O jogador sul-americano, fruto de um mundo (futebol) mais globalizado, está hoje claramente mais aberto a essas noções tácticas e, conseguir fazer aquilo que Bielsa dizer ser, em campo, o cruzamento máximo de estilos: “fintar como um sul-americano e desmarcar-se como um europeu!”.

O futebol sul-americano é um território infinito de talentos. De Vera Cruz a outras distantes paragens “em tal maneira é gracioso (dotado) que, querendo-o (sabendo-o) aproveitar, dar-se-á (encontrar-se-á) nele de tudo!”