A dupla fatal da Tippeligaen

31 de Agosto de 2014

A dupla fatal da Tippeligaen

Vidar Örn Kjartansson e Ghayas Zahid são a melhor dupla do futebol norueguês nos últimos anos

Kjartansson e Zahid no meio; são inseparáveis até nos festejos

O futebol foi feito para ser um jogo em que o melhor coletivo tem, ou terá, em termos teóricos, vantagem sobre o adversário. As individualidades sobressaem-se melhor com um coletivo inteligente e eficaz, o entendimento entre elementos é tão fulcral como defender ou atacar bem. Mas, claro, estão diretamente relacionados. E uma equipa que ataca bem não defende bem por defeito. O Vålerenga é um exemplo perfeito de que uma grande dupla de ataque não oferece vitórias: o 2º melhor ataque do campeonato, apesar de não ofuscado, é traído por aquela que é a 7ª pior defesa. O pódio seria certamente o destino dum Vålerenga menos permissivo defensivamente, mantendo aquela que é a sua imagem de marca: muitos golos e muita mobilidade por aquela que é a melhor dupla de goleadores da Tippeligaen.

A dupla fatal da Tippeligaen O islandês Kjartansson e o norueguês Zahid são incontestavelmente a mais produtiva dupla do futebol norueguês atualmente, uma referência nos próximos anos a nível interno sem possibilidades de brilhar nas competições europeias. Estão também longe dos olhos da vasta maioria dos adeptos europeus, mas o futebol nórdico não deve ficar indiferente àqueles que amam verdadeiramente esta árvore com ramos e frutos cada vez maiores. Porque falar nos maiores pesadelos das defesas da Tippeligaen neste momento é falar nuns impressionantes 61% do total dos golos da equipa. Dois nórdicos fizeram 27 dos 44 golos da equipa num campeonato que ainda tem muito para contar. Kjartansson com 21, o jovem Zahid com 6. Apenas 5 anos de diferença (o islandês com 24, já Zahid é um dos prospetos mais interessantes da Escandinávia aos 19 anos) num ataque – Zahid é principalmente um médio veloz, impressionante na transição e que sobe até zonas muito avançadas - que pode render centenas de golos caso permaneça intacto e ganhe um estatuto eterno no Vålerenga, atual 6º classificado do campeonato nortuguês. Algo difícil pois os protagonistas crescem e, se o dia chegar, podem rumar a teatros de maior dimensão e a audiências mais numerosas.

Mas afinal quem são estes autênticos devoradores de golos? Um islandês de 24 anos e outro norueguês de 19 combinam imperiosamente depois de muito trabalho, rotinas adquiridas e um processo ofensivo também ele imperioso; o Vålerenga depende tanto de um como de outro, o entrosamento é a chave

A dupla fatal da Tippeligaen

Além dos golos, Viðar Örn Kjartansson é conhecido pela sua habitual celebração

Nos dias de hoje, pensar em registos quase exagerados é falar em Ronaldo ou Messi, jogadores que numa época regular ultrapassam o seu número de jogos com os golos marcados, algo quase impensável no futebol atual e apenas digno dos extraterrestres que a espaços aterram neste planeta para atormentar as oposições defensivas. Bem-parecido e um dos ídolos para as senhoras que simpatizam com o Vålerenga, Kjartansson é um dos poucos jogadores no futebol europeu que ultrapassa o número de jogos com o número de golos marcados.

É impressionante e quase impensável para a tal vasta maioria que desconhece por completo o belíssimo futebol nórdico. 21 golos em 20 jogos, assim como um tento a cada 86 minutos. Se é verdade que os dados estatísticos não são sempre esclarecedores, é simultaneamente verdade que os mesmos não mentem. E quando um jogador que se estreia no futebol norueguês faz 5 bis em 21 jogos, assim como um hat-trick, marcando 48% do total dos golos da equipa é porque é especial. É mais um jogador enraizado no frio da Islândia: marca com os dois pés, preferindo o direito, joga bem de cabeça e não hesita na marcação das grandes penalidades. É tudo o que um verdadeiro goleador representa. Não é uma seta, compensa a velocidade – ou falta dela, apesar de não ser propriamente lento – com um posicionamento incrível e uma antecipação igualmente admirável. O típico jogador que quando é servido devidamente não hesita em rematar de primeiro e fazer um golaço. É um craque. É o clone de Mario Gómez na Escandinávia, para quem gosta de estabelecer estas sempre relativas comparações. Só 15cm mais baixo.

A dupla fatal da Tippeligaen

Ghayas Zahid não é Messi, mas é o mais parecido que o Vålerenga formou

Partilho o aniversário com Ghayas Zahid, jogador nascido em 1994. Estreou-se pelo Vålerenga em agosto de 2012, na altura ainda com 15 anos. Foi cedido em 2013 e voltou mais maduro esta temporada. Com a companhia de Kjartansson depende apenas dele para ter sucesso: tem menos propensão para fazer golos, apesar de os fazer e que bem os faz – já leva 6 na Tippeligaen, contribuindo para os 44 da equipa. Velocíssimo e o elemento mais importante do Vålerenga na transição rápida, uma arma comum da equipa, a sua qualidade técnica sobressai-se de forma mais frequente e é quem melhor serve o islandês que já foi referenciado nas últimas frases. Kjartansson, essa máquina de fazer golos.

Com 19 anos apenas e uma margem de progressão enorme, já leva um bis no campeonato e foi protagonista dum rol absolutamente inacreditável com o seu parceiro no ataque: 9 golos em 3 jogos! Apesar de não ser uma presença fixa no ataque ou em zonas de finalização, a constante liberdade criativa que lhe é dada faz maravilhas; é o criador, o pensador e muitas vezes o finalizador das jogadas exóticas criadas pelo Vålerenga. Um média que sonha em ser avançado durante o sono. E que dupla esta.

Luís Barreira,
Fundador da Crónica Futebolística e do projecto Futebol Nórdico