A ÉPOCA 2014/15: RELATÓRIO FINAL

25 de Junho de 2015

Não se trata de detectar o valor do campeonato português. O que sinto quando entro por esse exercício é outra coisa. É que não existe idiossincraticamente mais nenhum campeonato como o nosso. É impossível de definir tal a quantidade de paisagens, estádios, campos e atmosferas diferentes em que se joga. Um cenário que ora o torna competitivo, ora o torna caricaturável, disputado ou grotesco. Como um daqueles confusos “puzzles” de Mordillos onde coexistem personagens e ambientes de mundos distintos. O futebol português (atmosferas competitivas e equipas que as habitam) é assim.

Em mais lado nenhum existe um Estádio como a Choupana, bem lá em cima, muitas vezes cheio de nevoeiro, com uma bancada nova de um lado e outra antiga do outro, nada nos topos, bombos permanentes e uma equipa a querer jogar como um grande, ou, um campo cheio de vento forte, como o do Rio Ave ou Restelo, que sozinho quase leva a bola à baliza e afasta-a da outra, ou, outros modernos ou bonitos, como Coimbra, com uma equipa histórica mas quase sempre com tão pouca gente dando a sensação ao adversário de ir jogar sem ninguém incomodar. Depois, em mais nenhum sítio existe um estádio como a Mata Real, mesmo agora com uma bancada nova mas com o publico sempre muito próximo da rede a comer os jogadores, criou até um estilo de jogo, o “jogar à Paços”.

E, claro, entram os grandes estádios cheios com 60 mil pessoas, um universo diferente como é ir ao Funchal e, de repente, com aquele calor que amolece (mesmo no Inverno), a equipa que aterrou parece tacticamente tocada pela mosca "tsé-tsé".

Combinar estas diferentes “peças de Mordillo” exige um conhecimento do Portugal futebolístico profundo.

Esta é uma razão que, para além do seu crescimento tático, torna o treinador português cada vez mais sábio e ideal para pegar nisto tudo. Porque é, afinal, onde cresceu toda a vida.

Penso nisso, sobre a dificuldade de adaptação de Lopetegui ao futebol português. Nem era tanto os adversários, era tudo o que rodeava cada jogo e fazia esses adversários serem muito diferentes do que numa análise prévia são, sem estarem metidos no seu mundo. Tudo muda nessa altura. O modelo de jogo nasce, cresce e vive neste contexto. Quanto mais exigente for, mais abalos sofre, naturalmente.

Jorge Jesus, pelo contrário, é um “catedrático” que conhece o nosso futebol desde a poeira dos pelados até aos relvados mais opulentos. Ele sabe que o seu modelo de jogo de ataque rápido e risco de desequilibrio defensivo pela forma como …ataca (quando o 4x4x2 quase vira um ancestral 4x2x4) só pode ser aplicado desta forma tão arriscadamente pura nas assimetrias do nosso campeonato. E, mesmo aqui, fechou doutra forma o meio-campo contra FC Porto e Sporting e assim ganhou o “campeonato dos confrontos directos”.

“POSSE” VERSUS “TRANSIÇÕES”

Puxando o relatório mais para a questão táctica pura, cada vez mais se percebe a dificuldade em encontrar o que são novas tendências. Os modelos e princípios vitoriosos mudam de época para época. O confronto “modelo cultura da posse” versus “modelo de cultura do ataque rápido” já teve diferentes consagrações.

Em face, porém, da forma como a maior quantidade das equipas se torna forte sobretudo em organização defensiva, optando por no momento da perda da bola recuar rapidamente para o casulo defensivo dos seus últimos 30 metros, em vez de pressionar logo, cada vez mais a posse dá tempo para essa reorganização se fazer, algo que os modelos de ataque rápido, buscando profundidade imediata pós-recuperação não permitem. Por isso são mais eficazes. Pelo seu valor e pela incapacidade (intencional ou por ineficácia) dos adversários pressionarem.

As exigências aos treinadores são, porém, sempre máximas. Mesmo quando eles são (pelo valor e jogo da sua equipa) peças de puzzles completamente diferentes.