A equipa, as bases do pensamento

05 de Julho de 2008

A equipa, as bases do pensamento

A frase, em geral, surge quando o jogo é mais do que um simples jogo com a pressão no máximo. Então, o treinador ou o jogador, dizem-no para que todos percebem o seu grau de comprometimento com a causa: “Este jogo, tem que se ganhar seja de que maneira for!”. É das visões mais perturbantes para pensar em como preparar uma equipa. O que é “ganhar seja como for”? Se é uma questão de não respeitar a estética e o bom jogo, então contra-senso maior não pode existir. Porque jogar bem continua a ser o caminho mais próximo para ganhar um jogo. Porque ninguém ganha por jogar mal (ou “de que maneira for”), mas sim apesar de jogar mal.

Penso nisso vendo a ansiedade que, mesmo sem a época ainda ter começado, já se apoderou de cada “mundo particular” dos três grandes. Em todos, mais dúvidas do que certezas. Benfica, Sporting e FC Porto, todos jogam para ganhar. Sucede porém que uns (jogadores e princípios) têm mais qualidades do que outros. Jesualdo parte de uma base táctica sólida (4x3x3) e mesmo com a saída de jogadores-chave tenta evoluir (a tentação do 4x4x2) sem descurar esses pilares. Paulo Bento, com uma filosofia diferente (4x4x2 losango), faz o mesmo percurso. Mantém as bases e tenta dar-lhe outras formas de expressão (o 4x4x2 mais clássico).

Tudo é mais complexo quando o treinador chega de novo a um clube. Há uma ruptura com o passado. Depois das reuniões de gabinete, técnico e clube passam a conhecer-se no terreno, onde tudo verdadeiramente se decidem. É o momento chave para o treinador impor os seus conceitos, adaptando os jogadores à sua ideia de jogo. No Benfica notam-se alguns esboços desses princípios. Nesta fase, necessita de definir o esqueleto (estrutura) do seu onze. Depois, o seu funcionamento orgânico. Por fim, colocar nos sítios certos e com as dinâmicas (ritmos) certas, os seus membros. Dar em campo vidas diferentes ao seu 4x4x2 preferencial. Colocar o “craque” e o jogador “normal” nos seus devidos lugares. Quique Flores ainda busca as bases. Está no inicio da construção e já lhe pedem tudo quando apenas devia olhar-se a como estão a ser cimentados esses pilares. É uma construção difícil, na senda de outras que moldaram o edifício benfiquista nas últimas épocas.

A escolha do plantel (e onze titular) é, pois, crucial. Se der a um jogador uma missão que contraria as suas características individuais, é impossível aplicação da grande ideia (e seus princípios) no relvado. Por isso, Menotti dizia que, nesta fase de conhecimento, os treinadores deviam empregar 80% do tempo a melhorar as individualidades e só os restantes 20% em táctica. Passar horas a treinar a marcação de livres ou cantos, em vez de aperfeiçoar a forma de rematar a bola, é um erro comum em muitas equipas.

Por isso, sempre que vejo alguém perguntar a um treinador como vai ser o jogo ou a época, assusto-me com “há que ganhar como seja” e só acho possível dar uma resposta. Aquela que dava Menotti a fugir do repórter de pista em direcção ao banco quando o jogo já estava quase a começar: “Já sabes, tentaremos, como sempre, jogar bem, depois, veremos o que passa...”. Não existe outra forma de respeitar o futebol e construir uma vitória.