A escola holandesa está a mudar?

08 de Maio de 2015

A escola holandesa está a mudar?

Com o aproximar do final dos campeonatos por toda a Europa, vão-se descobrindo os novos campeões. Depois da nova conquista da Bundesliga pela fórmula-Guardiola que mudou a face vencedora do melhor futebol alemão de clubes (dando-lhe mais versatilidade em termos de sistemas), na Holanda assiste-se a uma mudança de ciclo.

Após quatro títulos do Ajax de De Boer, surge o remodelado PSV de Cocu a resgatar o titulo que lhe fugia desde 2008. De Boer e Cocu são dois treinadores produtos da mesma geração laranja e que também tiveram ambos, como jogadores, a escola de Barcelona.

Por isso, o distanciamento das ideias de jogo entre Ajax e PSV são interessantes de analisar. Montam, como é tendência desde décadas no futebol holandês, o 4x3x3 com extremos, mas nota-se neste novo PSV uma tentativa mais sólida de tentar atacar a dimensão internacional, algo que o Ajax não conseguiu neste ciclo de títulos.

O atual onze campeão espelha a tradicional aposta holandesa em jovens jogadores. De todo o onze base, só um jogador ultrapassa os 24 anos. É o mexicano Guardado (com 28). Respeitando quase o seu lado mais adulto de jogo, Cocu dá-lhe o controlo do corredor central (quando na carreira, Guardado- emprestado pelo Valência- foi mais um ala). Desta forma, tenta compensar a falta que ainda se fazia sentir dum dos melhores nº6 holandeses (Strootmann, que foi para a Roma, onde teve uma grave lesão).
No seu segundo ano no PSV, Cocu pegou em muito do que são os ensinamentos de Hiddink (uma instituição no clube) mas, no seu modelo, desrespeita um pouco as bases da tradicional escola holandesa ao não incutir uma dogmática “cultura de posse e circulação” (quando foi defrontar o Ajax levava uma percentagem média de 36% de posse em todos os jogos do campeonato).

O futebol de Cocu é mais multi-europeu no sentido da “verticalidade de jogo”, dando a sensação de ser uma equipa que se sente mais confortável a aproveitar o contra-ataque, com a velocidade dos alas Depay-Narsingh.
Meteu De Jong, um avançado técnico-esguio de referência na frente (comum a todas as equipas holandesas, que procuram até um nº9 mais corpulento) e deu nova profundidade (e confiança) no meio-campo a uma dupla de interiores que joga muito: Wijnaldum-Maher, mas que parecia estar a cair numa intensidade de jogo muito baixa. Cocu deu um novo impulso de mudança de velocidade ao futebol de ambos, entre os quais se espera sobretudo o crescimento de Maher, 21 anos, um miúdo com toque de bola e visão de jogo fantásticos.

Tem é de definir onde o deve fazer. Penso que será mais útil na segunda linha do meio-campo do que a nº8, pois não é muito rotativo e, a partir dessa posição, dificilmente poderá assim dar o salto para um superior nível competitivo.

HOLANDA: “INTENSIDADE TÁCTICA INDIVIDUAL”

Este é o dilema atual do futebol holandês de clubes para resgatar a sua projeção internacional nas provas europeias: ser mais competitivo (a tal intensidade de jogo).

O talento, esse, está lá, e nota-se em jogadores desde muito jovens. Crescem com a “cabeça solta”, gostando de ter a bola, procurando-a e não se limitando a esperar por ela. Falta, agora, no novo cenário de “agressividade táctica” europeia, meter mais velocidade de processos nos espaços. É uma questão de “intensidade táctica individual” que, depois, tem “transfer” para o colectivo.

O PSV de Cocu tem mais essa vocação, no estilo de jogo, do que o Ajax de De Boer. Não está em causa a qualidade de jogo, está em causa a competitividade desse jogo.

Os ensinamento de Van Gaal (ou até mesmo Hiddink) já não passam da mesma forma nessa missão porque hoje as bases de crescimento dos jogadores são outras. Por isso, o papel desta geração que cresceu com eles como jogadores (Cocu, De Boer e até Seddorf, com a aculturação italiana) podem ser importantes para, sem mexer no estilo, mexer na mentalidade.