A “Especialidade Vulgar”

01 de Fevereiro de 2018

Os três grandes encurralados frente a estratégias tácticas diferentes mas todos a ter de encontrar formas de ganhar a partir da criatividade ofensiva. O dilema de ter por dentro (pelo meio) ou por fora (pelos flancos). O FC Porto frente à “trincheira” em bloco-baixo do Moreirense, o Sporting contra as linhas de cobertura do meio-campo do V. Guimarães e o Benfica perante a intenção de jogar no “campo todo” do Belenenses.

O Benfica viu-se sem Krovinovic e percebeu que é impossível “enganar” assim tão facilmente um 4x3x3 que tinha nascido (e crescido) tão dependente na aplicação dos seus princípios nas características de um jogador em particular (e especifico).

Por isso, mais do que insistir na “colonização estilística” de outro jogador na mesma posição, a melhor solução será procurar um outro jogador... diferente, dentro do seu plantel, e adaptá-lo ao sistema, mesmo que para isso tenha de criar novos princípios posicionais para esse lugar pois as características do novo inquilino são muito diferentes do original ausente. É nesse sentido que Zivkovic (já feito) pode ser uma melhor solução do que João Carvalho (ainda a crescer).

No plano do jogo em vez de jogar tanto por dentro, o 4x3x3 passar a ter, desde pelo menos uma faixa, um jogo não tão exterior mas mais de diagonais como era o 4x4x2 (pedindo a Cervi que apareça por dentro, no que já foram os melhores momentos ofensivos do Benfica no Restelo).

O Sporting encontrou num jogador que quase vulgarizou nos últimos tempos, o elemento mais importante para, perante o bloqueio criado pelo V. Guimarães, descobrir como abrir o jogo em largura e profundidade: Bruno César, o “utilitário tático” que parece especialista em qualquer posição onde joga.

Entrou para a direita, permitiu a Bruno Fernandes vir para o centro, e com Acuña a abrir na esquerda, o jogo encontrou uma largura natural (forçando a defesa vimaranense a dançar por ter de se esticar mais até se partir na ligação em largura) para fazer os cruzamentos (o “jogo exterior”) indispensáveis para criar rupturas.

Chegou assim ao golo. Num ápice, Bruno César mostrou como um jogador que tinha sido vulgarizado pode tornar-se decisivo (e indispensável) para descobrir soluções que são o “ovo de Colombo” da táctica no futebol: relacionar bem zonas interiores com flancos.

Definindo bem os donos naturais desses espaços (com Bruno Fernandes no meio e Battaglia a ser remetido para jogos mais de segundas bolas do que de condução construtiva) o modelo leonino, embora longe da “italianização” preconizada por Jesus, encontra como ocupar em especialidade os três corredores do relvado desde trás.