A fantasia do 4x4x2

27 de Dezembro de 2002

A fantasia do 4x4x2

Juventus e Arsenal, Lippi e Wenger, jogam ambos, no papel, em 4x4x2, mas as interpretações e a dinâmica que cada um dá ao sistema são muito diferentes. As variantes podem nascer a meio campo, onde se pode jogar em linha (Inter), rombo (Juvenus), ou com trinco/pivot atrás de uma linha de «3» (Milan), ou podem surgir no ataque, onde se pode optar por dois extremos (Arsenal), dois avançados centro (Inter) ou um extremo e um ponta-de-lança (Juventus). Vejamos: O Arsenal, que foi talvez a equipa que começou a época a jogar o melhor futebol da Europa, joga com dois alas/extremos bem abertos nos flancos, que, em fase ofensiva, recuperada a posse da bola, partem desde quase a linha do meio campo (Pires, na direita, e Ljungberg, na esquerda) rumo á área adversária, procurando a linha para centrar, sobretudo Pires, ou flectindo em busca de um espaço para penetrar ou flanquear o jogo, caso de Ljungberg.

A Juventus, ao invés, apresenta, muitas vezes, o clássico desenho do losango a meio campo, o chamado rombo, como um médio defensivo no vértice baixo, Tachinardi, e um playmaker fantasista no polo oposto, em fase ofensiva, Nedved, que assiste os dois avançados e arromba as defesas adversárias com a sua qualidade técnica individual. Noutras vezes, Lippi prefere antes esquematizar o mais compacto 4x3x1x2, o sistema preferido do Milan de Ancellotti, onde o rombo é feito mas com desenho táctico menos perfeito. Ou seja, visto do alto ou no papel, detecta-se que um dos lados ofensivos do losango desenhado a meio campo é um pouco mais curto, parece ter uma perna torta, fruto da proximidade entre o transportador da bola e o playmaker ofensivo. Uma realidade táctica que pode ser detectada, por exemplo, quando Seedorf procura flectir de encontro a Rui Costa, para verticalizar o jogo. Diferente é o caso do Valência de Benitez, protagonista do 4x4x2 mais elástico do futebol europeu. Na base do sistema está uma variante que oscila entre a cobertura defensiva e o lançamento ofensivo: o doble pivot Baraja-Albelda, atrás de um meio campo e ataque que se estende, como uma serpente gigante, em 4x2x2x1x1 com um enganche ofensivo, Aimar, nas costas do ponta de lança, Carrew. Em suma, a eterna dicotomia, táctica-dinâmica da táctica.

Tácticas: De Turim á Corunha

A fantasia do 4x4x2Defensivamente, a base do 4x4x2 é sempre a defesa a «4», seja com líbero (Milan: Nesta) ou em linha com dois centrais de marcação (Inter: Canavarro e Materazzi). Há casos, porém, em que é necessário muita astúcia táctica. Por exemplo, se alinhar-se o rombo (Juventus) e o adversário jogar com o meio campo a «4» em linha, podem surgir falhas de marcação nesse sector, o que obrigará, em fase defensiva, ao recuo do vértice ofensivo do rombo, passando a jogar-se num 4x4x2 clássico, com os 4 médios em linha, recuperando-se novamente a posição de rombo, após a recuperação da boa, na fase ofensiva. Vejam jogar a Juventus de Lippi e entenderão melhor estes movimentos. O Inter de Cuper joga no mais clássico 4x4x2, destacando-se a possante dupla de pontas de lança, Crespo e Vieri. Entre eles e a linha de 4 médios, existe, á partida, um espaço vazio de 20/30 metros. Como os médios estão longe, garantindo a consistência defensiva, raramente recebem a bola no pé. Tem de correr atrás dela, ora para alcançar os passes em profundidade feitos pelos médios quase da zona do pivot, ora para serem os primeiros a fazer a zona na saída de bola do adversário. Um isolamento só atenuado com a subida dos médios ala, mas no resto do tempo, sobretudo nos jogos fora, eles são dois leões desamparados em luta pelo golo.

Apesar de teoricamente utilizarem ambos o 4x2x3x1, Real Madrid e Corunha tem, no entanto, dinâmicas muito diferentes. Assim, o onze de Irureta tem como base uma defesa sólida e sempre completa, com um meio-campo, -Mauro Silva, Sérgio, Duscher- vocacionado mais para a contenção do que para a acção ofensiva, deixando á frente da linha da bola, com a missão de servir os avançados, apenas um homem: Valerón. Ao invés, o Real Madrid, que tem o seu pêndulo no doble pivot Makelele-Cambiasso, atrás de uma linha de três médios-ofensivos, base dum 4x2x3x1 que obriga Zidane a jogar mais sob a esquerda, e se torna num 4x4x2 puro quando, em fase ofensiva, Raúl se adianta para junto do ponta de lança, Ronaldo.