A FILOSOFIA DE VICTOR FERNANDÉZ

11 de Agosto de 2004

O esquema de marcação não representa, em si mesmo, um sistema de jogo, mas através da sua simples observação, pode-se detectar muita da ideologia futebolística de um treinador. Quando em 1999, o jovem treinador Raúl Caneda convidou para fazer o prefácio do seu livro La Zona en el Futbol três treinadores tidos como alinhados na mesma ideologia de jogo, partidários do compromisso entre a beleza e o resultado, o debate táctico-filosófico no futebol espanhol ainda estava no auge. De um lado, a velha escola vinda da fúria ou a versão moderna dos mesmos conceitos aplicada à pressão por todo o campo, do outro, inspirados na erupção de Cruyff em Barcelona, os defensores do futebol belo e ofensivo como melhor forma de ganhar os jogos e o respeito do público. Nesta linha de pensamento, destacavam-se três nomes: Jorge Valdano, Juan Manuel Lillo e, então já o único também com argumento dos resultados do seu lado, Víctor Fernandéz. Foi este trio a abordar para Caneda o conceito de futebol á zona. Para Fernandez ele é única forma de resolver da forma mais racional as duas chaves tácticas do futebol: o domínio dos espaços e dos tempos. O conceito táctico em que se faz da inteligência em campo um valor para toda a equipa. Nessa época, 98/99, Fernandez estava na sua primeira época como treinador do Celta e apesar de vir de duas demissões em duas temporadas consecutivas, em Saragoça (ao fim de sete anos) e em Tenerife (apenas após 10 jornadas), continuava a conservar a mesma sedutora ideologia, aquela que nos faz acreditar que ainda é possível tirar o futebol da confusão de valores, tácticos e técnicos, em que caiu nos últimos tempos. Nas quatro épocas que esteve em Vigo, o seu Celta conseguiu quatro inéditos apuramentos consecutivos para as competições europeias, preconizando sempre um ideal de futebol ofensivo, estruturado á zona e baseado na técnica, que, no plano táctico, partia de um 4x2x3x1 para depois, na dinâmica do futebol pelos extremos ganhar um atraente e revivalista design de 4x3x3.

Saragoça (91-98): O despertar da ideologia do bom futebol

Para os fieis adeptos do bom futebol, é refrescante encontrar por entre o universo de treinadores pragmáticos do presente, um homem como Victor Fernandez, uma espécie de D.Quixote do futebol á moda antiga, técnico e pelos extremos, estratégia que desenvolveu desde que começou a treinar, ainda antes dos 20 anos, os infantis e os juvenis do Stadium Casablanca. Á margem das quatro linhas, foi criando, aos poucos, a sua ideologia de futebol, ao mesmo tempo que, noutros bancos, os da universidade, se embrenhava nos clássicos da literatura ou nos compêndios de filosofia.

Com uma bola e um livro debaixo do braço, licenciado em Filosofia e Letras e como primeiro da classe no curso de treinadores de Aragón, lançou-se, nos bancos do futebol profissional a partir de 1988, como adjunto de Antic, no Saragoça, o clube do seu coração, do qual, a meio da época 90/91 (estava então a orientar a equipa satélite, o Deportivo Aragão), assumiria o comando como treinador principal após a demissão do uruguaio Ildo Maneiro, salvando-o da descida de divisão no último jogo.

Tinha então apenas 30 anos, estava lançada a sua carreira como treinador.

Poyet e Caceres: dois jogadores á sua imagem

A FILOSOFIA DE VICTOR FERNANDÉZEm sete épocas no Saragoça, formou grandes equipas, sempre intérpretes de um futebol ofensivo e sedutor, ganhou títulos e, mais do que isso, conquistou um espaço de referência no futebol espanhol como um dos treinadores de cujas equipas tinham mais respeito pela bola, para quem os jogadores nunca se devem esquecer que o relvado tem 104 por 67 metros e ela deve rolar por todos esses espaços de relva. Nas primeiras duas equipas, no inicio dos anos 90, passeando pelo meio da tabela, formou um onze onde se destacavam pilares como o enorme guarda-redes Cedrun, os defesas Aguado e Esteban, sector por onde também passou, discretamente o alemão Brehme, os médios Franco, Mateut e o aguerrido uruguaio Poyet, enquanto na frente estavam Higuera e Pardeza, antiga figura do Real Madrid. Seria, porém, o período entre 94 e 97 a marcar o auge de Fernandez em Saragoça, quando conquistou a Taça do Rei, em 93/94, no desempate por penaltys, e a Taça das Taças, em 94/95, ao Arsenal, com um golo do meio campo marcado no último minuto por Nayim. Era uma equipa que mesclava a capacidade técnica com o espirito lutador. Não tinha grandes rendilhados, mas fazia circular a bola com destreza e velocidade, num sistema de 4x4x2. Na defesa, os símbolos Belsué e Solana, conciliavam-se com a garra do argentino Careces e o marroquino tecnicista Nayim. A garra de Poyet continuava a gerir o meio campo, apoiando de perto da dupla atacante composta pelo esquivo e Pardeza e o temperamental Esnaider, que realizou com Fernandez as melhores épocas da sua vida.

O fracasso de Tenerife

Depois dos grandes triunfos, as duas temporadas seguintes trariam, porém, o chamado lado lunar da carreira de um treinador. Desgastado pelo tempo, a aventura de Saragoça terminaria á 11ª jornada da Liga 96/97, quando a equipa ocupava o antepenúltimo lugar. O onze perdera brilho, Um ciclo sombrio na carreira de Fernandez que, na época seguinte, ressurgiria em Tenerife, onde, apontado como o novo Valdano (que rumara a Madrid) também sairia á 11ª jornada, vitima das bolas no poste, apesar de contar com avançados como Kodro, Makaay e o português Domingos, apoiados a meio campo pelos tecnicistas Juanele, Chano e Jokanovic, com o holandês Vierklau como chefe da defesa.

CELTA (98-2001): A «pressão» e a «zona», do 4x4x2 ao 4x2x3x1

A FILOSOFIA DE VICTOR FERNANDÉZO discurso e o método de Victor Fernandez, já eram, no entanto, venerados pelos subversivos do futebol espectáculo anti-defensivista.

Assim, depois de treinadores claramente d linha conservadora, como Fernado Castro Santos e Lotina, o Celta decidiu apostar num técnico com outro tipo de filosofia futebolística. Foi com essa missão que o romântico de Saragoça chegou a Vigo na época 98/99, onde, logo no primeiro ano formou uma sedutora equipa, entre o 4x4x2 e o 4x2x3x1, de novo com o meio campo mesclado entre recuperadores e construtores, bem expresso na dupla Makelele-Mostovoi, emergindo, ao mesmo tempo, sobre as faixas, a sua devoção ao jogo pelos flancos, como as pequenas sociedades entre o lateral e o médio ala-extremo activadas por Michel Salgado-Karpin, á direita, e Berges-Revivo ou Juan Sanchez, á esquerda. Na defesa, trouxe consigo de Saragoça o veloz e duro Cáceres para gerir uma defesa com marcações á zona, apoiado pelo discreto Djorovic. Como ponta de lança, atrás do nº10 Mostovoi, o possante búlgaro Penev. A base da segurança do onze estava porém na dupla de médios defensivos, com Makele e, como jogador-chave, o brasileiro Mazinho, incansável ladrão de bolas e criador de jogadas atacantes.

Estavam lançadas as bases técnico-tácticas que fariam o seu projecto no Celta: marcação á zona, pressão alta á frente da defessa com dois médios de contenção de características bífidas, velocidade no contra-ataque pelos flancos, com alas ou extremos puros, capazes de transformar, num ápice, o 4x2x3x1 em 4x3x3, e liberdade, na fase de criação, para os artistas da equipa inventarem assistências mortais para o ponta de lança e demais avançados. É esta, no fundo, a filosofia Fernandez.

Dupla personalidade, fora e casa

Ao longo das épocas, sucedem-se as belas equipas do Celta, cujo principio básico residia n a posse e circulação da bola a toda a largura do campo, procurando chegar pelos flancos á área contrária. Numa das suas melhores equipas, tudo começa na defesa com Cáceres e para ganhar depois brilho num triângulo de médios, cada qual com um estilo: Mostovoi, imaginação, Karpin, carácter e Giovanella, recuperação. Na frente, apoiados por Edú, um brasileiro com futebol tricot, Catanha, o goleador paciente, e Gustavo López, um rato do contra ataque esperando o erro alheio. Um das suas maiores falhas, terá residido, porém, no facto de, fora de casa, abordar o jogo tendo quase sempre primeiro em conta as características do adversário do que as suas. Um equivoco constante que terá impedido o Celta de ganhar maior personalidade competitiva quando nos primeiros lugares, pelo que, no dia em que abandonou Vigo para rumar a Sevilha, o seu único amargo era o nunca ter logrado o apuramento para a Liga dos Campeões.

BÉTIS (2002-2004): A leveza artística do onze de Denilson

A FILOSOFIA DE VICTOR FERNANDÉZO último sonho de bom futebol de Victor Fernadez morou, nestas duas últimas épocas, no Bétis. Um ciclo onde, mais uma vez, foi apanhado no debate filosófico entre os adeptos do futebol realista e os do espectáculo. Tal como o Celta, o seu Bétis baseou-se dum sistema de 4x3x3 mascarado de 4x2x3x1 com dois extremos puros. Partindo da estrutura defensiva montada pelo antecessor Juande Ramos, buscou o equilíbrio defesa-ataque através, sobretudo, da eficácia do passe curto e da velocidade diagonal dos homens que actuam sobre as alas. Neste seu projecto, destacaram-se vários talentos da cantera, sobretudo na defesa: Juanito e Rivas, centrais, e Luis Fernández e Varela, laterais ofensivos. Com o meio campo regido pelo trinco brasileiro Marcos Assunção, apoiado por Ito, ficaram criadas as condições para soltar os mágicos do onze: os extremos Denilson, á esquerda, e Joaquín, á direita, inventores de mórbidas jogadas ofensivas, onde surgem, depois, perto da área, o regressado Alfonso e o ilusionista Capi, um sedutor médio ofensivo. Depois de inícios deslumbrantes, a equipa foi, no entanto, caindo presa á, digamos, insustentável leveza competitiva do seu futebol, acabando a meio da tabela, em 8º e 9º lugar, longe dos objectivos sonhados. Incapaz de manter o mesmo ritmo, apesar de nunca perder a coesão defensiva herdada, tornou-se, muitas vezes, num grupo de individualidades sem sentido colectivo e regularidade exibicional. Foi uma lição do chamado frio futebol moderno.

Um perfil e um estilo controverso

A FILOSOFIA DE VICTOR FERNANDÉZFalar de Fernandez é, portanto, falar de um treinador que gosta de futebol solto e ofensivo, privilegiando os artistas sobre os operários.

Há quem o acuse de romântico ou lírico, citando a leveza competitiva das suas equipas, bonitas, é certo, mas algo defasadas do ritmo feroz de marcação do futebol realista que domina o presente. O relativo fracasso do seu Bétis, é, nesse sentido, o último argumento que sustenta essa análise demasiado pragmática do perfil de Fernandez. Há quem diga que o êxito no futebol é uma mescla de oportunidade e talento. Como se trata de um jogo, porém, Victor Fernandez gosta de acrescentar-lhe outro item: o azar. A única circunstância que, diz, pode impedir o alcançar dos êxitos de todos aqueles treinadores que acreditam na sua vertente de futebol. As explicações podem ser encontradas, porém, noutros quadrantes mais técnicos, como no facto de, em duas épocas, ter sempre faltado um grande ponta de lança ao Bétis. Veremos como será no FC Porto...

A FILOSOFIA DE VICTOR FERNANDÉZO INICIO DA CARREIRA: Em 1988, com apenas 28 anos, ao lado de Radomir Antic, o jovem Victor Fernandez, como adjunto, dá os primeiros passos no tormento dos "bancos". Dois anos depois seria treinador principal. Um caso clássico de vocação natural, num homem culto, com formação superior, que fala de futebol com classe e sabedoria. Portugal vai receber um senhor do futebol espanhol.

Época Clube Classificação

1988-89 – Saragoça (adjunto)

1989-90 – Saragoça (adjunto)

1990-91 – Deportivo Aragão (Até Março de 1991)
1990-91 – Saragoça 17º

1991-92 – Saragoça 6º

1992-93 - Saragoça 9º

1993-94 - Saragoça 3º (+ Taça de Espanha)

1994-95 - Saragoça 7º (+ Taça das Taças)

1995-96 - Saragoça 13ª

1996-97 - Saragoça (demitido após 11 jornadas)

1997-98 - Tenerife (demitido após 10 jornadas)

1998-99 – Celta 5º (Apurado para a Taça UEFA)

1999-00 – Celta 7º (Vencedor da Taça Intertoto)

2000-01 – Celta 6º (Apurado para a Taça UEFA)

2001-02 – Celta 5º (Apurado para a Taça UEFA)

2002-03 – Bétis 8º 2003-04 - Bétis 9º