A geração “Espaço 1999”: o nosso Euro Sub-17:

22 de Maio de 2016

Como nasce o talento? Esta geração tem uma marca. “Espaço 1999”. O ano em que nasceram sem se tratar de uma série de ficção científica. Trata-se da nossa seleção Sub-17 que agarrou o seu Europeu em 2016.

A formação tem, essencialmente, a responsabilidade de lapidar o talento, dizer-lhe “o que é” (onde deves jogar em campo) e como se deve expressar (na técnica e na táctica). Tudo isto deve crescer/emergir interligado.
É um onze-geração (saída do bom trabalho dos clubes) que nos faz sonhar (e podiam lá estar outros, como Felipe Soares) mas que também tem de nos fazer ter dúvidas: o que queres ser (ou melhor, o que podes ser) quando fores grande?

Nesta “geração não espontânea” tudo ainda se passa numa fase em que os jogadores conseguem parecer muitas coisas diferentes ao mesmo tempo. Como Gedson Fernandes, que no Interassociações de 2013 fazia, na frente, golos na Final da mesma forma como agora também joga a lateral-direito no clube mas, chegado a esta seleção impõe-se como médio-interior na “dupla dos nº8” com o dinâmico Quina (ou Miguel Luis, mais estabilizador).

jose gomes

José Gomes é um nº9 enviado de uma paisagem perdida do nosso futebol. Formar um ponta-de-lança é, para o futebol português, tão complexo como criar um panda em cativeiro. José Gomes move-se (finta, ginga com bola, arranca, remata) com aromas que me cativam mais porque fazem, num ápice, recordar os “cheiros de África” (origens de Bissau) que fizeram muito do nosso melhor código genético futebolístico. O que será daqui a uns anos, quando crescer muscularmente no “futebol que se faz no ginásio”? Nestes casos africanos, esta questão é ainda mais perigosa. Ficam diferentes rapidamente e quase nunca mudam depois.

Dju têm mais o “cheiro da habilidade” enquanto João Felipe, ambidestro, faz o que quer da bola e do jogo, vindo da faixa, que é, no quadro tático moderno, de onde vêm todos os criativos. Confesso que é o jogador de que gosto mais neste onze porque é aquele em quem vejo toda a qualidade (atenção, não disse “qualidades”) a correr/jogar/pensar em conjunto. E, por falar em pensamento, Florentino (outra vez Angola) está na “casa nº6” como um adulto (circulação/transição) a quem o resto obedece.
Os laterais sobem na faixa, mas Dalot impressiona mais como...sobe no jogo pela faixa. Como Diogo Queirós, a central, quer ser a “autoridade”.
Uma equipa serena em campo estado que Hélio lhes passa emoldurando o talento sem deixar a criatividade (com ordem) cair na habilidade (sem saída).

diz espanha

A Espanha que defrontamos na Final tem uma escola de estilo entranhada em si desde o berço. É outra forma de “latinidade”. Que vive mais o “passe” como fim e principio. Procura menos a “ginga”. Mas pensam o jogo como ninguém. Saem todos da mesma mesa de laboratório do “balompíé”.
Esta “Espanha 99” tem, no entanto, mais verticalidade, expressa num ala-direito, Jordi Mboula, que (com origem franco-congolesa) é no estilo uma fotocópia de Henry, enquanto no meio que manda eléctrico no jogo é Brahim Diaz (com sangue marroquino) veloz nº10 criativo baixote (1,70m, como gosta a escola espanhola) que já está no Manchester City.

Não é uma seleção melhor que a portuguesa mas tem mais “bases fabricadas” a que se agarrar. Muitos dos nossos talentos jogam mais com a sua natureza. Mesmo com raízes distintas, ambos os onzes equilibraram-se no confronto. O problema foi a meio da segunda parte Diaz “roubar” o jogo só para ele num sector em que, no entendimento colectivo, a Espanha tem melhores médios.

Os penaltys são uma história à parte mas teria de existir o dia em que o nosso futebol não teia de acabar sempre em fado. Todos os remates foram marcados com classe mas um espanhol foi ao poste. Desta vez, o destino foi nosso. E, agira, silêncio. Estamos a construir o futuro a partir de 99.

Uma seleção para nos para nos fazer pensar: o que queres ser (ou podes ser) quando fores grande?