A guerra dos losangos

01 de Dezembro de 2006

A guerra dos losangos

Paulo Bento e Fernando Santos são dois treinadores de gerações muito diferentes. Quinze anos separam a sua vivência futebolística. Cresceram com distintas influências, viveram o futebol enquanto jogadores em épocas diferentes, um quase sempre em grandes clubes, outro mais habituado a lutas pela descida. Um tem larga experiência nos bancos, da luta pela permanência à conquista do titulo. O outro, está na sua segunda época como treinador de uma equipa sénior, iniciando a carreira logo no comando de um grande. Apesar desses distintos habitats, ambos estão, nesta fase da sua vida de treinador, tacticamente convertidos a uma figura geométrica que marca o desenho de muitas equipas modernas: o losango.

O Sporting-Benfica poderá ser, assim, um choque geométrico interessante. Não existe, no futebol português, jogo com carga tão histórica como o «derby» lisboeta. Curiosamente, pode parecer incrível ou profundamente disparatado, mas o primeiro lance que me vem à memória sempre que penso num Sporting-Benfica é de um golo que não vi. É estranho, sim senhor. Foi um golo do Yazalde, em 1974, ao cabecear em voo um cruzamento do Dé da esquerda. Nessa tarde estava a ver um jogo da II Divisão em Braga mas a fascinação de ouvir a descrição da jogada na rádio fez a minha imaginação voar até hoje. Depois, durante muito tempo foi a foto do Nuno Ferrari a eternizar o espectacular mergulho do Chirola. Depois as esbatidas imagens a preto e branco da TV. Muitos derbys se seguiram depois, mas aquele lance teve algo de mágico.

Não se falava então em losangos e haveria de passar-se muito mais tempo sem falar. O curioso é que, apesar de ainda não se ter dado essa nova descoberta táctico-geométrica, o meio-campo das equipas muitas vezes já adquiriam em campo essa forma. Quando Allison treinou o Sporting, em 82, contam-me alguns jogadores dessa equipa que, nas prelecções, era habitual o inglês desenhar o meio-campo num quadrado, só que depois dizia que, agora, quero que isto se mova em campo e fazia os gestos com a mão, no sentido dos ponteiros do relógio. A certa altura, nessa dinâmica de movimentos dos quatro médios o quadrado tombava e virava então losango, embora nessa altura ninguém lhe chamasse assim. Os espanhóis, por exemplo, chamam-lhe rombo, devido à forma como o vértice ofensivo parece perfurar a defesa adversária. O losango tem, no entanto, uma riqueza de dinâmica táctica que ultrapassa essa mera visão ofensiva.

 A guerra dos losangosEsta reflexão pode-se aplicar ao primeiro derby oficial desta época. Cada um interpreta o losango de forma diferente. Fernando Santos disse que era um dos sistemas mais complicados para jogar. É um pouco verdade.

Penso é que é dos mais difíceis de ensinar os jogadores a jogar, sobretudo a nível das faixas laterais, a atacar como a defender. A outra chave está nos movimentos do vértice ofensivo. Em rigor, só a partir desta posição que se pode domesticar tacticamente um losango. No fundo, fazer com que ele se torne num triângulo a defender, com o recuo desse médio, e no tal rombo a atacar, com o avanço desse jogador chave. No Sporting ele é, por principio, Moutinho. No Benfica, Fernando Santos tenta que seja Simão, mas numa dinâmica diferente, pois procura sobretudo trocas posicionais faixa-centro. Por isso, o losango do Benfica pede, muitas vezes, referências precisas de posicionamento, quer a defender como a atacar, visto os alas terem como principal referência os movimentos do pivot-ofensivo. Para além disso, esta posição, está a confundir o jogo de Simão, pois, apesar da sua classe, ele não é um organizador, sendo na faixa onde o seu futebol (quando, jogando na esquerda, faz diagonais de fora para dentro, descolocando as marcações adversárias com esse movimento de ruptura) desiquilibra verdadeiramente.

No centro, fica impedido de o fazer. Ou seja, seja em que sistema for, o bom futebol começa e acaba sempre no médio-centro, sua vocação e classe para o lugar.

DESAFIO A PAULO BENTO: O segundo sistema

 A guerra dos losangosEntre Sporting e Benfica existe uma questão que os separa desde o início da época. Enquanto o Sporting escolheu jogadores para um sistema, o Benfica escolheu um sistema e depois tentou, e ainda tenta, encaixar os jogadores. É difícil fazer uma pré-época trabalhando dois sistemas ao mesmo tempo. No Benfica, essa indefinição explica, por si só, o porquê da equipa ainda não ter mecanizado os seus movimentos. Paulo Bento percebeu as desvantagens de utilizar mais do que um sistema sem a equipa estar adaptada a ele: “Podemos querer tornar o nosso jogo imprevisível para o adversário, mas nunca devemos torná-lo imprevisível para os nosso jogadores”. O problema está, porém, na crescente previsibilidade do sistema e suas dinâmicas. É notório como, sobretudo contra equipas fechadas, tem dificuldades em alargar o jogo nas faixas nos últimos 25 metros. O próximo passo do projecto táctico de Paulo Bento pode passar, assim, por mecanizar um segundo sistema em que a equipa saiba caminhar.

LATERAIS COM O PÉ CERTO: Leo e Tello

 A guerra dos losangosUma dos aspectos que mais me perturba ao observar uma equipa é quando encontro um lateral com o pé trocado. Um destro na esquerda, ou um esquerdino na direita. É contra-natura. Quer tacticamente, quer na dinâmica individual. Como um dos princípios para uma equipa dizer querer começar a construir bom futebol reside na forma como sai a jogar pela faixa desde a sua própria área, com um lateral com o pé trocado, estilo destro na esquerda (como Fucile no FC Porto ou até Caneira, quando jogava na mesma óptica) é impossível dar verticalidade de movimentos. Em vez de progredir pela faixa, a tendência é flectir para dentro à procura do melhor pé para conduzir a bola. Isto condiciona quer a progressão em posse, quer o passe. A atacar, fica limitado nos cruzamentos, pois é forçado a executá-los com o seu pior pé, acabando muitas vezes, com medo de falhar, por fintar para dentro e perder o timing certo para o fazer.

 A guerra dos losangosCom Tello na esquerda o Sporting recuperou a largura e profundidade da sua faixa que não tinha com o destro Caneira. Cruza bem e também não perde a consistência de transição defensiva. No Benfica, Leo, a quem só faltariam alguns centímetros, enche toda a faixa canhota, mas para soltar a sua forte verticalidade ofensiva, sem comprometer a estrutura defensiva, necessitava ter do outro lado um lateral menos parecido e mais posicional para ficar com os centrais quando ele subisse. Ambos são, no entanto, defesas-laterais esquerdos no verdadeiro sentido do termo. Dominam todos os segredos do jogo pela sua faixa, nunca são apanhados numa flagrante situação contra-natura e, com isso, colocam a dinâmicas defesa-ataque-defesa quase sempre no sítio certo.