A intimidade na relva

20 de Maio de 2008

A intimidade na relva

Uma equipa, em campo, é como um pensamento colectivo em movimento. O segredo para decidir bem está em reconhecer os terrenos que se pisa a cada momento do jogo. Fala-se muito nos princípios de jogo. Como o próprio nome indica eles são um….principio. Um ponto de partida para chegar a uma ideia, isto é, para materializar uma filosofia de jogo. São um conjunto de movimentos comportamentais que orientam em campo o jogador na procura das soluções mais eficazes em diferentes situações de jogo. Nesse sentido, eles como que vagueiam pelo jogo em busca do momento certo para surgir.

No jogar do FC Porto os laterais sempre foram elementos-chave para esta organização do pensamento sobre o jogo. Contra a teia-da-aranha que é o meio-campo do Sporting, feita à medida para controlar jogos sem ter obrigação dos dominar, demonstrou como, mexendo nesses princípios, os momentos de jogo onde esses laterais deveriam entrar passaram a ter contornos muito diferentes. João Paulo encosta aos centrais, Fucile sobe e fica então com três centrais. Também jogara assim em Alvalade. A equipa progride com a bola até ao meio-campo adversário, entra nele, mas quando o jogo cai nas faixas tem dificuldades em reconhecer os espaços de entrada da bola. A razão estava na falta de critério selectivo dos jogadores que surgiam nessa posição, sem o seu dono natural na faixa direita, Bosingwa. Isto é, são os momentos que contêm princípios. Nunca o contrário. Os jogadores são quem, ao surgir neles, lhes dão vida. Sem capacidade de os interpretar, o controlo desses momentos de jogo perde-se.

A época foi difícil, cristalizou muitos movimentos, mas em campo os jogadores do Sporting reconhecem melhor as necessidades colectivas.

Conseguir, depois, aplicar os princípios a cada momento, sem os tornar num fim em si mesmo, é outra questão. Em jogos onde a largura (isto é, fazer a bola variar e girar de flanco para flanco) é mais importante do que a profundidade (isto é, dar-lhe verticalidade na faixa) o modelo leonino respira com outra tranquilidade. Ficar sem Liedson durante algum tempo pode ser, até, o pretexto ideal para estimular outras dinâmicas de movimentação ofensiva. A dupla atacante para jogar mais em conjunto do que um deles (o companheiro ocasional) mais em função do outro (Liedson). A questão do sistema já encaixou em mais variantes, como a ocupação dos flancos. A tal verticalidade.

Fala-se muito na dinâmica mas penso que, no futebol actual, a grande diferença em termos de qualidade de jogo está antes na qualidade posicional dos jogadores em interacção isto é, criar apoios sucessivos em função do local da bola e espaço onde está o jogo. Nesse contexto, embora com contornos diferentes, o jogo preferencial de FC Porto e Sporting chegou ao fim da linha. É decisivo, para a próxima época, criar novos princípios. E, com isso, mudar a imaginação dos vários momentos de jogo.