A luz da táctica

01 de Abril de 2008

A luz da táctica

Não existem fórmulas científicas para ganhar um jogo. Isto é, para o mesmo jogo, os dois treinadores, tentando ambos ganhar, preparam estratégias diferentes. As características dos nossos jogadores são a base para pensar o jogo. Depois, é definir o ponto de partida da estratégia. Anular o adversário ou surpreender o adversário? O ideal seria colocar os dois em igualdade, mas como as forças são, à partida, diferentes, essas referências estratégicas iniciais também seguem essa correlação.

Jorge Jesus lançou o jogo com o FC Porto prevendo uma “superioridade táctica” da sua equipa em campo. Fez essa previsão após vencer Benfica e Sporting, onde montou estratégias diferentes mas ambas com o mesmo ponto de partida: anular o adversário, controlando o momento defensivo. Foi nos mesmos princípios que confundiu até o Bayern Munique. Segue-se flexibilizar a estratégia para o jogo ofensivo. Para isso, tem um avançado ideal para ataques rápidos, Weldon, e cria desequilíbrios quando Silas e Zé Pedro pegam na bola perto da área adversária.

A melhor forma de contrariar um adversário passa por detectar qual a zona/posição onde ele começa verdadeiramente a jogar. No FC Porto, há uma referência clara na primeira fase de construção: o pivot recuado Paulo Assunção. Ao fazer um dos seus avançados, Roncatto, cair em cima dele nesse momento, Jesus estancou a saída de bola portista na primeira parte. Desta forma, Meireles e Lucho, na segunda fase, nunca receberam a bola nos tempos e espaços certos. Na segunda parte, Jesualdo leu esse jogo táctico e fez recuar para essa primeira zona de construção outro jogador, Meireles. Com esse gesto, alterou as coordenadas de marcações azuis. Roncatto continuou a cair em Assunção (então mais sobre a meia-direita) mas nesse espaço já estava outro jogador, Meireles, que, mais solto, reconquistou a primeira zona de construção.

Quanto mais atrás no terreno uma equipa começar a pensar o jogo ofensivo, melhor pode controlar o jogo completo. O Belenenses é, indiscutivelmente, uma equipa tacticamente culta, mas, nos grandes jogos, investe demasiado em dois momentos do jogo (transição e organização defensiva) ao ponto dos outros dois (transição e organização ofensiva) ficarem demasiado condicionados. Dirão que, com outros argumentos, Jesus poderia ter o outro ponto de partida para a estratégia. É verdade, mas o problema não é esse. O problema está na capacidade da equipa passar, rapidamente, do chamado jogo escuro a defender, para um jogo claro a atacar. Principal objectivo: retirar rápido e com critério a bola da zona pressão e voltar a juntar linhas a atacar. É o que falta ao Belenenses nestes duelos. Fica demasiado tempo no jogo escuro.

Quando entram em campo as equipas passam a ser mais dos jogadores do que dos treinadores, mas há movimentos que podem fazer a diferença. No banco, para o treinador, o jogo é quase xadrez futebolístico.