A máquina e as máscaras

18 de Junho de 2012

Planeta do Europeu (12)

É difícil entender o futebol quando uma seleção tão elogiada pela táctica e técnica sincronizada é afastada no arranque do Torneio. Vivendo o jogo do pragmatismo do resultado, tal coloca logo tudo em questão.

A Rússia foi eliminada do Euro, mas os elogios ao seu plano de jogo não ficam em causa. O que fica em causa é a sua capacidade de reação ao jogo. Ou seja, o onze russo tem um jogo rotinado com qualidade, mas perde essas coordenadas quando o resultado não corresponde a essas boas intenções. Tem dificuldade em adaptar esse plano às imprevistas circunstâncias adversas que pedem novas sub-dinâmicas atacantes.

O trio do meio-campo foi a chave: Primeiro (frente à Polónia) deixou de respirar bem face à maior intensidade de pressão alta adversária. Depois (contra Grécia) não conseguiu -sem Zyryanov, elo de ligação do triângulo entre Denisov e Shirokov- criar espaços de penetração na defesa grega que, a ganhar, recuou toda para a sua caverna à frente da área.

É a distância entre ter um plano de jogo bem preparado, e, depois, não ser capaz de reagir ao jogo quando este vai (no resultado e nos espaços tácticos) para caminhos adversos. O imutável chip de táctico-estético russo caiu nessa alçapão.

E mais perturbante é essa derrota suceder frente a uma equipa que vive no polo oposto estético: a Grécia. A montanha defensiva grega começa, porém, na forma como o seu meio-campo recuava e se organiza à frente da defesa. Assume o bloco-baixo, Katsouranis sabe como se colocar a nº6, Maniatis é um médio-polivalente exímio nas compensações, e Karagounis solta-se com a bola para o ataque. O caso-Karagounis é, porém, curioso.

Porque, sinceramente, acho que é o jogador que mais engana em termos de intensidade de jogo. Como? Tem um carácter enorme e assume muito bem a posse (e remata) mas raramente o vemos a saltar, fazer um pique ou ganhar bolas divididas. É a alma dos espaços vazios.

Não é fácil fazer dançar as marcações gregas com uma simples finta ou simulação. Fecham-se atrás assumindo estarem na sua casa táctica preferida e usam, sem precipitações e com critério a técnica para sair dela.

Saber (ou não) mudar

A máquina e as máscarasEntrou no Euro a jogar bem num sistema (4x2x3x1) equilibrado e rápido na transição ofensiva: extremos (Kuba-Rybus, duplo-pivot Polanski-Murawski de contenção transporte, um nº9 mortífero, Lewandowski, e um 10 organizador Obraniak). De repente, porém, apareceu um trinco pica-pedra no meio disto, Dudka, e toda a Polónia mudou. Saiu um extremo, o 10 passou para a esquerda, o nº9 deixou de ter bons passes, os pivots deixaram de fazer o inicio de construção. A cada jogo e jogada, sentia-se que se afastava do bom futebol (só voltava ao sistema preferencial a perder) e aproximava-se do precipício da eliminação. Até cair.

Na República Checa a entrada de um trinco (Hubschamann) funcionou ao contrário, porque o onze precisava de libertar Jiracek para a segunda linha e adiantar Plasil (que não é um 6, mas sim um 8). Tirou Rezek, nº9 que estava a jogar na ala, e abriu a faixa direita às subidas do lateral Selassie e às derivações de Jiracek. A cada jogo e jogada sentia-se que se aproximava do melhor futebol. Até ganhar o grupo.

Duas seleções, dois treinadores, Zmuda e Bilek, duas faces de como entender ou não a equipa.