A “montanha” mais alta de todas

24 de Abril de 2016

No caminho para o titulo, este era o jogo que para o Benfica tinha o maior perigo da chamada “descompressão competitiva”. Isto é, depois de definidas quais as batalhas mais difíceis, após passar o Rio Ave, este jogo com o V. Guimarães deprimido, podia ser como um alçapão para o entusiasmo benfiquista. O sistema de três centrais (que projetava os laterais desdobrando o 5x4x1) era um fantasma táctico que, mesmo sem vestir de branco como faz o onze vimaranense, se estendia em cima do 4x4x2 encarnado que entrou adormecido, a querer pautar o ritmo trocando a bola.
O Benfica demorou a aumentar a velocidade do seu jogo. Quanto tempo vai num jogo de futebol se vai da confiança à ansiedade dentro da cabeça duma equipa (e bancadas à volta)? Nos jogos anteriores isso não se sentira, mas este tinha o tal diferente perigo “táctico-mental da mosca tsé-tsé”. E a ansiedade apareceu. Sente-se quando é o colectivo que se enerva e pressente-se que a solução para desbloquear o jogo (perante um adversário que se fecha cada vez mais) estará mais num lance de rasgo/desequilíbrio individual. O olhar, o coçar da cabeça de Rui Vitória ao intervalo traduzia essa sensação incómoda que o que se via na relva transmitia ao treinador. Nunca como noutro jogo nesta fase era importante a sua palestra no balneário. Para repor os índices táticos e mentais da equipa.
O arranque da segunda parte parecia, nesse sentido, trazer esse outro motor. No primeiro lance, no cruzamento largo, no livre lateral longo de Gaitan, o cabeceamento de Jardel na bola era como um “pontapé no jogo”. Num ápice, o golo, e o onze encarnado tinha a hipótese de o agarrar com outro “estado de animo”. Repor a confiança em cima da ansiedade.
O clima do jogo nunca foi, porém, esse. Faz falta ter o melhor Pizzi de equilíbrios táctico ligando sectores nesta fase da época. A equipa sente a sua “ausência”. Quando Sálvio entra para o seu lugar espera-se outras coisas, mais de avançado do que de médio e a equipa perde coesão da frente para trás. No fundo, é a organização que fica em causa (perigo mais iminente quando o lado físico também treme)
Os cortes de André Almeida sobre a linha de baliza e a saída destemida de Emerson seguraram o cabeceamento de Jardel para além do ritmo cardíaco normal. Podia não parecer, mas este era o jogo mentalmente mais perigoso neste conjunto de desafios aos limites da equipa.