A «natureza» do futebol, FUTEBOL!

30 de Janeiro de 2010

O futebol e o jogador são uma construção conjunta. É como meter a natureza num laboratório. Querem fazer um exercício engraçado? Olhem para um jogador já feito e tentem imaginar como seria ainda miúdo, a jogar na rua ou nos primeiros treinos de chuteiras. Façam-no tanto para um fantasista como para um mais duro.
Já não sei quem era, mas recordo um jogador que para convencer o colega a passar-lhe a bola dizia simplesmente: “Dá-me, que sei jogar desde que saí da barriga da minha mãe!”. Era um exagero, mas, se calhar, até existia algo de verdade. O jogador nasce ou faz-se?

Este domingo, passei a manhã seguindo jogos de miúdos desde os Sub-11 até aos sub-14. Uma sucessão de jogos, montes de miúdos, com os mais variados tipo de penteados e gestos técnicos. Jogos de 7 contra 7. Jogam por vezes um escalão acima um contra os outros. Percebe-se então como a diferença física pode ser absoluta, mas, durante o jogo, é na maioria das vezes…relativa. Porque antes de tudo há sempre o espaço e uma bola. É engraçado ver como alguns gostam de jogar com os cordões desapertados. Quando lhes chamam a atenção, reagem logo: “não, não, é mesmo assim…”. A personalidade começa a desenhar-se desde cedo. O mais calado, o mais extrovertido. O que finta mais, o que passa melhor. Leiam outra vez esta última frase. Não é por acaso que as palavras «mais» e «melhor» apareceram em diferentes contextos.

No meio de tantos miúdos, saltam alguns à vista. “Aquele é canhoto?”. Não, afinal, não era. “Mas jogava tão bem com a esquerda…” O miúdo tem apenas 12 anos. Estão ali conceitos de jogo. Está ali a sua natureza. De repente, repara-se noutro miúdo. Recebe a bola sem a deixar morrer, temporiza e passa. O quê? Pensei, disse, escrevi, “temporiza”? Mas é só um miúdo que ainda vai fazer 12 anos! E então passa-me pela cabeça: até chegar ao tal futebol adulto ainda vão passar mais 7, 8 anos. E para trás, já estavam um ou dois, desde que começara a «construção».

Projectar (tentar prever) o futuro pode ser tão aliciante como imaginar o passado. Por isso, sugeri aquele exercício no início do texto. É que, no fim, acho que as conclusões vão dar exactamente ao mesmo sítio. O talento aperfeiçoa-se com o conselho. A prática contextualizada, em processos aquisitivos diferentes, conforme o escalão (diferentes treinadores) e cenários (rua/relvado), estimula os principais sentidos (características técnicas/morfológicas) que cada um tem, mas a base de tudo, supra-referência da formação, é a própria natureza de cada miúdo (jogador). Desde a “barriga da mãe”. Por isso, mesmo com 12 anos já olhas e dizes que «é» central, ou «é» pivot. Porque têm essa natureza consigo na forma de «ser» que traduz a forma de…«jogar»! Agora, metam-lhe os conceitos (a importância do treinador/formador). Por isso, estava naquele miúdo que tanto gostei a recepção orientada, a temporização, o passe! Tenho de ver outra vez rapidamente. Ainda só tem 12 anos, falta muito até à idade adulta, mas o tempo passa depressa. Ou talvez não…

A natureza do futebol FUTEBOLQuem inventou a «zona»?

Edison inventou a luz. Bell inventou o telefone. E quem inventou a defesa à zona no futebol? Existem opiniões diferentes. Qual é a minha? Foi o próprio leitor. Ou eu próprio. Ou o Cruyff. Ou, ok, admito, o Jorge Jesus. Ou o Jesualdo. Ou um desconhecido qualquer. Todas estas respostas estão certas. Todos inventamos a defesa à zona… Porque todos, mais ou menos, jogamos futebol de rua. E antigamente jogava-se mesmo muito na rua. E, pensem bem, se, nesses tempos, nesses «grandes jogos», intensos, alguém marcava individualmente o colega? Não, a única coisa que nos atraía era a bola. Via-se mesmo cenas (lances) com grandes aglomerados de miúdos a tentar ficar com ela. Quanto muito também procurávamos um espaço livre para a ir buscar ou receber. Mas ninguém se encostava ao colega adversário. Quanto muito olhava-se se algúem lhe ia passar a bola. Para lá chegar primeiro. Mas, na cabeça, só se marcava (olhava e procurava) a bola.
Tudo isto é a romântica origem da zona no futebol. Está cientificamente provado. Basta regressar à nossa infância.

A natureza do futebol FUTEBOL1«Feitos» um para o outro

Acho que se Cardozo e Saviola em vez de se encontrarem na equipa principal do Benfica, com 26 e 27 anos, respectivamente, se tivessem encontrado ainda miúdos num qualquer baldio de terra, com 11 ou 12 anos, não jogariam de forma muito diferente. Ou melhor, não teriam uma «natureza» muito diferente. Acredito que queriam tanto ter a bola um como o outro, mas não custa crer que Saviola a teria mais vezes. Ou, pelo menos, chegaria mais vezes primeiro a ela. Cardozo cresceu “rápido”. Ficou alto. Saviola, tirando os dentes, cresceu pouco. Ficou um baixinho.
O miúdo Cardozo podia nem marcar muitos golos. Se calhar jogava à defesa. Por ser alto… Mas faltava meter-lhe os conceitos de jogo. A “construção” de ambos é, no fundo, o auto-entendimento das suas características. Ao ponto de parecer que podiam aos 12 anos fazer uma dupla de avançados como agora com 26 ou 28. Por isso, quando muitas vezes vejo perguntar a jogadores sobre a posição que gostam de jogar, fico meio intrigado. Mas como pode ele decidir? Ele já nasceu assim!