A nobreza de escolher como…perder

09 de Novembro de 2014

A nobreza de escolher como...perder

Com menos tempo e espaço para jogar, necessita-se de maior precisão em tudo que se faz em campo. As equipas e os jogadores. Ver jogar o Ajax tem sempre uma ressonância mítica dos velhos amantes do bom futebol.

Eles mudaram o curso da história. Hoje, mesmo sabendo que não podem voltar a faze-lo, continuam fiéis a esse seu legado. É uma responsabilidade histórica a que Frank de Boer, o atual treinador saído dos relvados (como todo o resto do staff técnico, Bergkamp, Van der Saar, Overmars, Wim Jonk, Stam) sabe disso.

O jogo com o Barcelona foi o pretexto ideal para se encontrar com os ecos da sua criação. O momento atual do Barça merece análise mais profunda. Nesta reflexão, olhei para o Ajax. Porque queria olhar para a nobreza que é como uma equipa escolhe a forma de... perder.

Estranha esta última frase? Não. Reparem, tentar ganhar todos tentam, a partir das mais diversas estratégias. Depois logo se vê se o conseguem. Ou seja, nada garante que a forma escolhida seja garantia de ganhar. Ao contrário, se perderem, já sabem como tal irá acontecer. A partir de uma filosofia de jogo coerente com os seus princípios ou a partir duma estratégia de contenção que, no limite, traía a sua identidade. Em suma: à partida, a forma de perder está sempre garantida. Por isso, quando hoje o Ajax tenta continuar a jogar fiel aos seus princípios sem as mesmas armas (jogadores) do passado, revela uma superioridade moral de jogo como mais nenhum outro clube demonstra (em qualquer época).

No dia antes do jogo, leio Frank de Boer falar sobre a atual equipa (quatro vezes consecutiva campeã na Holanda mas incapaz de saltar os grupos da Champions). Recorda Kovacs e Michels mas sabe que vive no futebol moderno. Discute com Cruyff que quer que Klaassem jogue como Busquets. Não é possível. Há que adaptar as ideias. Ao prender posicionalmente Klassen, perderá poder de rutura/profundidade.

Não perde, porém, a consciência do que é fundamental como momento-base para o jogar bem das melhores equipas: a saída de bola, o inicio da construção: “o bom passe leva uma mensagem. E isso os jogadores têm que entender que com o passe dão soluções ao companheiro para lhe facilitar a receção orientada e passar um adversário”.

Se a equipa tem medo, isto não funciona. Por isso, inventou Blind de lateral para pivot a época passada. A ideia nasceu, confessa, vendo como Guardiola fazia a saída de bola no Bayern, quando os centrais abriam, não através do recuar do pivot, mas sim dum lateral que fletia para pegar no centro nesses momentos. Tanto o faz Lahm como Alaba. Nessa altura, o adversário que o marca confunde-se perante um movimento que dá a solução de saída de bola perante a pressão adversária.

O Ajax continua a jogar em 4x3x3 mas não é uma equipa que pressione muito alto. Perde a posse e prefere organizar-se em duas linhas para, em largura, preparar a interceção do... passe adversário. Em posse, continua aabrir o campo, vendo a largura das faixas. E continua lançar a sua Academia, agora babilónica, como expressa os 19 anos de El Ghazi, origens marroquinas já crescido na Holanda (os holandarruecos, como lhe chamam na Holanda, face á quantidade enorme de casos semelhantes). É um veloz avançado (ia a escrever extremo, mas é redutor) que se move por toda a frente de ataque, mas que respira melhor quando o vemos pela faixa.

E assim jogou o Ajax. E assim perdeu o Ajax. Tudo isto é uma reflexão demasiado romântica? Ainda bem.