A paisagem após o clássico: Evitar cristalização do modelo

14 de Dezembro de 2014

Falar na paisagem depois do clássico, é debater os efeitos que o fosse de seis pontos pode ter para os jogos seguintes no choque emocional entre confiança e ansiedade. Entre estes estados de espírito opostos continuam a existir Jesus e Lopetegui, com dias ideias de jogo muito diferentes. Não acho que vão mudar depois do que aconteceu. Nenhuma foi superior à outra pelo modelo. Só pela estratégia. A de Jesus aguentou todo o jogo (reagindo). A de Lopetegui só no seu inicio (não reagindo depois).

Nesse sentido, o “modelo espanhol” do FC Porto sentiu a insustentável leveza da sua essência frente ao lado mais estratégico de jogo que o pensamento encarnado trouxe para o Dragão. Terá sido, talvez, o Benfica mais compacto da era-Jesus, aquele em que os seus jogadores passaram todo o jogo mais juntos, vendo-se bem uns aos outros. Por isso, é natural ficar com a sensação que Samaris fez o seu melhor jogo porque foi aquele em que Enzo esteve mais próximo dele (e Talisca de Enzo, sem bola) e assim o protegia de erros sem ter de mover-se em espaços tão largos nos quais ainda treme. Aguentou posicionalmente no segredo táctico-estratégico colectivo de “juntar jogadores” e “encurtar” o campo e o espaço de execução ao adversário.

A equipa nunca cedeu à tentação de esticar jogo como faz nos seus ataques rápidos. Aqui não. Aguentou sempre a distância entrelinhas.

A exceção foram os primeiros 20/30 minutos em que o “modelo espanhol” teve uma nuance estratégica. Ou seja, ao traçar o plano de jogo, Lopetegui surpreendeu a defesa subida do Benfica com os médios interiores a surgirem mais avançados em ruptura atrás das bolas que (com passes longos) caiam nas costas da defesa encarnada, enquanto os alas flectiam e arrastavam os laterais. Foi quando teve o jogo no “ponto táctico” para o ganhar. Não marcou.

Tudo começou a mudar quando o meio-campo encarnado acertou marcações/encurtamentos e impediu que jogador portista em posse deixa-se de ter sempre a “bola aberta”, isto é, podendo ver bem essas linhas de passe de ruptura. A partir de certa altura, os jogadores portistas passaram a ter a bola “sempre fechada”. Deixaram de ver espaços para entrar.

Como podem mudar as coisas tão depressa? Eis a questão. Penso que tem a ver muito com a dogmatização mental que o modelo espanhol de circulação faz na cabeça dos jogadores. Ou seja, a equipa tem o seu modelo e num jogo (como este) quer meter-lhe uma nuance estratégica diferente para surpreender o adversário. Entra com ela, cria desequilíbrios, mas com a força que o treino de meter na cabeça o modelo tem, tal faz com que passado esse momento a mente táctica dos jogadores regresse à base do modelo e abandone o lado estratégico que estava a fazer a diferença.

É a dificuldade de modelar... o modelo ao ponto de ele ser filosofia de jogo mas, ao mesmo tempo, admitir a entrada da estratégia nele em certos jogos. É uma lacuna do “modelo espanhol” que, apesar da qualidade da ideia, também se nota nas suas seleções. Rapidamente o modelo volta à sua “casa táctico-mental” e abandona a estratégia tal a forma como a cabeça dos jogadores está “formatada” para uma determinada forma de jogar. Foge da estratégia para o modelo puro e duro.

E, assim, num ápice, o jogo mudou e passou a dar a sensação exatamente oposta à do inicio. Nesse processo, mudou mais o FC Porto que o Benfica (que, simplesmente, passou a fechar melhor). Os golos fizeram o resto, surgindo quase como se não fizessem parte do jogo que estava a decorrer. Mas faziam. E, com isso, o Benfica ganhou-o tanto como taticamente o FC Porto o perdeu.