A parede de Jesualdo

29 de Janeiro de 2008

A parede de Jesualdo

O que pode levar um treinador a mudar o seu sistema habitual, mecanizado e ganhador, face a um jogo específico? É inevitável pensar nisso após ver o diferente FC Porto que surgiu em Alvalade, quer na estrutura como nas dinâmicas defesa-ataque-defesa. É já habitual a preocupação de Jesualdo em travar a circulação do 4x4x2 do meio-campo leonino, em vantagem numérica no papel se mantivesse o seu 4x3x3, mas na sua mente estaria algo mais profundo. Testar o 4x4x2. É uma necessidade que sente cada vez que pensa na dimensão internacional e pergunta como pode a equipa crescer tacticamente para encarar os mais exigentes relvados europeus. A sentença de Alvalade foi clara: este FC Porto não sabe jogar em 4x4x2 de forma a partir dele interpretar com o mesmo rigor táctico os diferentes momentos do jogo (transição e organização defensiva/ transição e organização ofensiva). Jesualdo disse que fez um grande jogo e o resultado foi um acidente.

Se comparar só as oportunidades até pode chegar a essa conclusão. Se analisar o jogo e a ocupação dos espaços em todos aqueles momentos, certamente que não chegará a essa conclusão, pelo menos no primeiro ponto. O FC Porto fez, em Alvalade, a sua exibição mais desequilibrada dos últimos tempos. É óbvio que o 2-0 lançou dados tácticos diferentes, mas sempre que atacou desequilibrando o adversário, auto-desiquilibrou-se na transição defensiva como nunca antes se vira. E isto paga-se caro no campo internacional frente a equipas muito superiores às da nossa Liga. É obrigatório saber jogar em 4x4x2 para ser competitivo internacionalmente.

A parede de JesualdoPrimeira condição para o fazer: ter quatro médios de verdade. Porque para se pensar como médio é preciso…ser-se médio. Nos hábitos e na leitura de jogo. São eles que, em campo, têm responsabilidade de unir aqueles quatro momentos. Isso não se faz com adaptações. Cech nem é médio, nem é lateral. Fica a meio-caminho de tudo e, assim, quando colocado como quarto médio improvisado, também fica sempre a meio-caminho na tentativa de ocupar os espaços nesses diferentes momentos.

Jesualdo ensaiou, tenuemente, o duplo-pivot defensivo (única hipótese de tentar o 4x4x2 face aos jogadores ao dispor depois de sair Leandro Lima) mas uma coisa é fazer este 4x4x2 com um duplo-pivot tipo Assunção-Bolatti, soltando depois na segunda linha, em movimentos alternados zonas laterais-zonas interiores, Meireles e Lucho (este mais perto dos avançados) outra coisa é fazê-lo numa estrutura com, digamos, uma perna-torta, tal o vazio de Cech e o desequilíbrio entre as duas faixas, deixando o corredor direito entregue ás subidas de Bosingwa. O jogo de Alvalade teve, portanto, um miradouro para lá do nosso campeonato. Foi, frente a um adversário forte, como um teste à dimensão europeia de outra opção táctica. Neste aspecto, o insucesso não está nas oportunidades desperdiçadas, mas sim nos desequilíbrios revelados.